Fundado no coração da Serra do Cipó, em Vau da Lagoa – Santana do Riacho –, o Parque Arqueológico Pedra do Sol receberá, neste próximo sábado (20), visitantes e entusiastas para experienciar em natureza exuberante o prenúncio da primavera.
O evento marcará o despontar do equinócio da primavera, um fenômeno astronômico que marca o início desta mesma estação do ano caracterizado por fazer o dia e a noite com a mesma duração de horas (haja vista a exatidão dos raios solares em incidir sobre a linha do equador em idêntica medida, não havendo qualquer alteração no eixo do orbe planetário a este momento quanto a este fato).
No hemisfério sul, geralmente ocorre entre os dias 22 e 23 de setembro.
E para comemorar esta circunstância que, simbolicamente, também inspira a um mergulho ao interior mais benfazejo do ser humano em busca de harmonia autêntica, o Parque Pedra do Sol estará proporcionando aos interessados um convite para se anteciparem a este evento no marcador ancestral, no alto da Serra do Cipó.
O termo “marcador ancestral” se refere ao conjunto de registros inestimáveis que dão provas e validam a presença de povos antigos que viveram na Serra há milhares de anos – 12.000 a 8.500, aproximadamente.
São desde locais de onde se colheram utensílios e/ou fósseis, até marcas legítimas de cultura tais como pinturas rupestres – sendo estas muito evidentes na Lapa da Sucupira e Lapa do Veado.

Detendo um amplo espaço de área preservada com vegetação nativa e fauna original, o Parque Pedra do Sol é um santuário ecológico que busca integrar, pois, em perfeita harmonia a cultura arqueológica em ressonância ao bioma, enfatizando a importância de uma firme atitude de conscientização aos moradores locais e visitantes em prol da proteção aos diversos sítios arqueológicos e habitat natural do cerrado.
Este trabalho é realizado para evitar o depredamento por vândalos e pichadores destes sítios arqueológicos e eventual destruição dos majestosos e exclusivos campos rupestres da serra, que estão ameaçados por cobiçosa especulação imobiliária, queimadas ilegais e descaso de um governo desprovido de políticos comprometidos com nada além de si mesmos e inconseqüente satisfação pessoal.

Contando com uma dedicada equipe liderada pelos diretores Marina Gomide e Gustavo Villa (responsável em fundar o Parque), o Pedra do Sol propõe não somente em palavras, mas também através de ação, antídotos razoáveis para a toxicidade humana e venal:
Uma educação ambiental robusta e qualificada; a criação de reservas privadas para resguardar os tesouros naturais; um ecoturismo satisfatório e que não gere danos ao patrimônio arqueológico.

Para saber mais sobre o Parque e suas atividades, visite o site: parquepedradosol.com.br
Seus contatos, canal no Youtube e redes sociais, clique Aqui.
E para fazer sua reserva no evento “Equinócio de Primavera na Pedra do Sol”, clique Aqui.
Confira, abaixo, então, a íntegra da entrevista feita com Marina Gomide e, logo abaixo, o podcast em áudio com ela.
Que bons dias e noites nos orientem ao bem. (Amém!)
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MARINA GOMIDE: Diretora do Parque Arqueológico Pedra do Sol
1) Quem é você (nome, formação educacional etc.) e como tem sido a sua rotina de vida atualmente?
Meu nome é Marina Gomide, sou antropóloga e arqueóloga formada pela UFMG em 2019, apaixonada pelo meio ambiente, pelos saberes tradicionais e pela preservação do patrimônio cultural. Desde 2023, dedico minha vida ao Parque Arqueológico da Pedra do Sol, uma iniciativa social de pesquisa localizada na Serra do Cipó, em Santana do Riacho. Este é o segundo parque arqueológico de iniciativa privada do Brasil — o primeiro foi criado em Andrelândia, no Sul de Minas, nos anos 1990.
O Parque é estruturado como uma OSC (Organização da Sociedade Civil), gerida por uma sociedade de pesquisadores, e está em processo de consolidação como uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). Essa categoria garante a preservação perpétua de nossos 7,7 hectares, onde estão protegidos dois sítios arqueológicos. Atualmente, o Parque é conduzido por mim e pelo historiador Gustavo Villa.
Mais do que um trabalho, o Parque é meu lar, minha missão e meu projeto de vida.
Minha rotina aqui é múltipla: vai desde os cuidados cotidianos com a casa até a recepção de visitantes e o desenvolvimento de pesquisas em antropologia, sociologia e arqueologia. Também atuamos na produção cultural independente, com documentários e publicações sobre história, cultura e antropologia, além de promover atividades de extensão em parceria com escolas, sempre priorizando a rede pública de ensino.
Em maio deste ano, por exemplo, recebemos cerca de 50 alunos da Escola Estadual Tancredo Neves, de Santa Luzia. O projeto incluiu a formação de professores em princípios básicos de arqueologia, palestras para os estudantes e uma visita guiada à Lapa da Sucupira, o maior sítio arqueológico visitável da Serra do Cipó, com um paredão de aproximadamente 400 metros de comprimento e 8 de altura, com mais de 1000 pinturas rupestres.
A experiência foi tão positiva que se tornou um projeto permanente: todos os anos, alunos do ensino médio de Santa Luzia participarão dessas atividades, em uma iniciativa pioneira que une ciência, educação e o fortalecimento das novas gerações para o reconhecimento e valorização do patrimônio arqueológico de Santa Luzia e da Serra do Cipó.
Além disso, iniciamos em parceria com a Secretaria de Turismo de Santana do Riacho um projeto de capacitação para os condutores ambientais da região, os guias turísticos, que levam o público a conhecer os sítios arqueológicos. Nosso objetivo é difundir a ideia de que a Serra do Cipó é muito mais do que suas cachoeiras: ela também é um território de arte, cultura e memória indígena de longa duração.
Como desdobramento desse curso, planejamos elaborar e distribuir um material didático específico e gratuito para os condutores, reunindo informações essenciais sobre o contexto arqueológico local e principais ideias de como realizar a visita de maneira sustentável e respeitosa ao patrimônio arqueológico.

2) Qual o seu envolvimento referente ao Parque Pedra do Sol e como tem sido até hoje as relações e desafios desta iniciativa?
Frequento a Serra do Cipó desde 2015, quando o Gustavo me trouxe pela primeira vez. Desde então, percorro com ele os campos rupestres de altitude, conhecendo de perto o contexto local e identificando sítios arqueológicos. São quase dez anos de convivência e paixão pela região do Vau da Lagoa, essa região rural no alto da serra do cipó, a quase 1.200 metros de altitude. Apesar de estar próxima dos principais atrativos turísticos, ainda é pouco conhecida, já que o acesso é restrito a moradores e proprietários de terrenos da parte alta.
Os desafios que enfrentamos aqui são muitos, mas o principal é sensibilizar a sociedade para três causas centrais que o Parque defende: a preservação dos sítios arqueológicos milenares de pinturas rupestres; a proteção ambiental — porque não há como conservar o patrimônio arqueológico em um ambiente degradado; e a manutenção das áreas de céu escuro, fundamentais para o astroturismo e para a experiência única de contemplar o céu em sua plenitude.
Os sítios arqueológicos da Serra do Cipó guardam registros humanos de até 12 mil anos, associados aos primeiros povos que ocuparam a região — a mesma população identificada em Lagoa Santa, ligada a “Luzia”, o mais antigo das Américas. O contexto arqueológico indica que esses grupos também habitaram e viveram neste cenário exuberante da serra, além de terem nadado e pescado nas cachoeiras e cursos d’água dos principais afluentes da região – o Rio Cipó e rio Parauninha.
No entanto, esse patrimônio riquíssimo encontra-se em situação crítica. Muitas pinturas rupestres foram depredadas; esqueletos humanos tão antigos quanto os de Lagoa Santa foram pilhados desde os anos 1970; e, em diversos sítios, surgem galpões, áreas de descarte e bota-fora, além de usos desrespeitosos do espaço, como locais destinados apenas a necessidades fisiológicas.
O resultado é um quadro alarmante de abandono e descaso, que ameaça a memória mais remota das populações que viveram aqui e compromete a preservação de um patrimônio singular, cheio de potencial para o ensino de história, sociologia e para a pesquisa científica. De um mapeamento preliminar realizado pelo Parque, ao menos 10 sítios — de um universo de 50 identificados — já apresentam depredações, seja por pichações, desplaquetamento de fragmentos dos paredões ou saques dos sítios arqueológicos.
Esse não é um problema exclusivo da Serra do Cipó, mas um problema nacional: os sítios arqueológicos ainda não são plenamente reconhecidos como parte da cultura, o que resulta em poucas políticas públicas voltadas à gestão cuidadosa desse patrimônio. Poucos arqueólogos têm clareza de que, além da pesquisa acadêmica e do licenciamento ambiental, existe um terceiro ramo de atuação na arqueologia: os projetos culturais. É por meio deles que se pode captar financiamento para programas continuados de educação e, em alguns casos, até para a restauração de pinturas rupestres.
No entanto, trata-se de um trabalho caro e complexo, que reforça a importância de investir em prevenção e conscientização, evitando a necessidade de restaurar depois que o dano já está feito. Embora existam mecanismos de fomento, ainda são raros os editais voltados especificamente à arqueologia, o que limita a continuidade e a efetividade das ações de preservação e educação.
No campo da preservação ambiental, o Parque está alinhado à gestão sustentável. Estamos inseridos em um ecossistema único: o cerrado de campo rupestre, cuja fauna e flora são extremamente endêmicas, ou seja, só existem aqui.
Temos o orgulho de preservar, em nossa RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural), 7,7 hectares de vegetação e fauna típicas dos campos de altitude. Essa área integra a APA Morro da Pedreira, criada em 1990 para proteger o entorno do Parque Nacional da Serra do Cipó — uma região que hoje sofre com especulação imobiliária, loteamentos irregulares, poluição dos cursos d’água e outros problemas derivados da falta de conscientização.
A relevância desse contexto é tamanha que os campos rupestres, antes classificados apenas como uma formação do cerrado, hoje são reconhecidos como um bioma independente: o bioma campo rupestre, devido à sua singularidade ecológica e à importância para a biodiversidade mundial. Aqui no Parque já avistamos lobos guarás, além de vários tipos de serpentes, aves e insetos, endêmicos e raros que têm morada somente nesse ecossistema singular.
Além disso, o Parque está localizado em uma região estratégica, próxima ao Rio Parauninha, que, em conjunto com o Rio Cipó, compõe um dos mais importantes sistemas hídricos do Médio Rio das Velhas. Esses cursos d’água abastecem o Rio das Velhas com águas de qualidade potável na região de Curvelo e possuem, ainda, o potencial de contribuir para a sua despoluição.
Por isso, a preservação ambiental e arqueológica é o eixo central — e o verdadeiro compromisso — do Parque Arqueológico da Pedra do Sol. Para que isso se concretize, ainda enfrentamos a falta de recursos: grande parte da infraestrutura, incluindo a construção da sede do Parque, tem sido viabilizada com recursos próprios.

3) Qual a intenção do Projeto ao qual está vinculada na Serra e o que pode (ou poderia) ser feito para se obter sucesso na demanda?
O Parque tem como objetivo se consolidar como um centro de pesquisas e um núcleo de apoio ao ICMBio no alto da Serra do Cipó. Para isso, estamos investindo em melhorias de infraestrutura, de modo a receber pesquisadores interessados em estudar a região e, assim, produzir conhecimento científico que contribua diretamente para a preservação ambiental.
Outro grande projeto em andamento é a criação de um museu, voltado ao resgate da memória arqueológica da região. Nos anos 1970, a missão franco-brasileira realizou escavações no Cipó e levou diversos vestígios para a UFMG — entre eles, esqueletos humanos de grande relevância, que infelizmente foram destruídos em um incêndio na reserva técnica da universidade, em junho de 2020. Pouca gente conhece essa história de longa duração registrada aqui, e sempre que a menciono as pessoas demonstram surpresa.
Diante disso, buscamos reconstruir parte desse acervo em modelos digitais 3D, com possibilidade de impressão e exposição no Parque, devolvendo simbolicamente esse patrimônio à comunidade e aos visitantes.
Nossa meta é consolidar, um centro de pesquisa e um espaço museológico voltado ao estudo do contexto ambiental, arqueológico e paisagístico, além de fomentar o turismo sustentável e o astroturismo no alto da serra.
Em essência, o Parque pretende consolidar um projeto que valorize a herança dos povos originários da região — um legado muitas vezes invisibilizado e relegado pelo poder público. Por meio de visitas guiadas a sítios arqueológicos, mediações especializadas e da observação das constelações indígenas, buscamos oferecer ao público uma experiência transformadora, capaz de ampliar a compreensão da cultura brasileira e fortalecer o reconhecimento de nossas raízes ancestrais.
Também temos a intenção de nos firmar como um projeto de apoio às escolas da região, oferecendo infraestrutura para receber alunos e professores. A arqueologia, muitas vezes, é um tema difícil de ser abordado em sala de aula, seja pela falta de materiais didáticos ligados ao contexto local, seja pela pouca ou inexistente formação dos docentes nessa área. Por isso, queremos que o Parque funcione como um centro de apoio à educação básica, promovendo a extensão desses conhecimentos e aproximando estudantes do patrimônio cultural que os cerca, seja em relação ao patrimônio arqueológico, seja em relação ao céu noturno.
Acreditamos que a educação é a chave para enfrentar o descaso e a depredação dos sítios arqueológicos. Educar para preservar é, para nós, a forma mais eficaz de garantir a continuidade desse patrimônio para as futuras gerações.

4) Quais são as principais formas atuais de conseguir recursos para esse projeto?
Atualmente, não contamos com nenhum tipo de apoio governamental. A principal forma de custear o Parque tem sido por meio do turismo sustentável, especialmente através do aluguel de espaços, por meio da plataforma Airbnb, e da realização de roteiros mediados em sítios arqueológicos locais. Neste momento, estamos investindo na melhoria da infraestrutura da casa para receber visitantes que desejam vivenciar o espaço e, ao mesmo tempo, contribuir com nossa missão de preservação.
Como parte desse esforço, no equinócio de primavera, no dia 20 de setembro, realizaremos um Open House especial. A programação incluirá música ao vivo, poesia, observação do pôr do sol no sítio arqueológico da Pedra do Sol — que dá nome ao projeto — e, à noite, confraternização com frios, vinhos e espetinhos.
Um dos momentos centrais será a vivência de astronomia cultural, conduzida por Gustavo, que há mais de dez anos pesquisa o tema. Com o auxílio de uma caneta a laser, ele apresentará as constelações indígenas, especialmente as da tradição tupi-guarani.

A proposta é pioneira: difundir a astronomia cultural dos povos originários brasileiros. Diferente da leitura tradicional europeia do céu — igualmente válida, mas já bastante difundida — buscamos destacar a forma como os povos indígenas construíram sua própria compreensão do cosmos.
O evento acontecerá na nossa Sede aqui do Parque, e convido a todos para desfrutar e conhecer a iniciativa de pesquisa e preservação do Parque Pedra do Sol.
Tiago Boson
- O Colaborador Tiago Boson é multi-instrumentista autodidata, compositor, professor de música, pintor, ilustrador, escritor/poeta (não publicado).
E-mail: bosontiago@gmail.com
Instagram: @tiagoboson
As opiniões contidas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do portal Balcão News.
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