E pressiona preços das proteínas
A Quaresma, tradição religiosa que atravessa gerações, também provoca efeitos no mercado de proteínas no Brasil. O período é marcado pela redução do consumo de carne vermelha e pelo aumento da procura por alternativas como peixes e ovos, movimento que altera a dinâmica de oferta, demanda e preços em diferentes regiões do país.
Em Minas Gerais, o impacto já é percebido no mercado. Levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) aponta uma forte valorização dos ovos no atacado desde o fim de 2025.
A caixa com 30 dúzias de ovos brancos extra, por exemplo, passou de cerca de R$ 139 em dezembro para aproximadamente R$ 188 no início de março, alta de R$ 49 — o que representa aumento de aproximadamente 35% no período.
No caso do ovo vermelho extra, a valorização foi ainda maior. O preço saiu de R$ 151 para cerca de R$ 210, avanço de R$ 59, equivalente a aproximadamente 39%.
“Greve das galinhas”
Além do aumento da demanda, o setor também observa um fenômeno conhecido informalmente como “greve das galinhas”.
De acordo com o diretor técnico da Avimig e consultor da Sinpamig, Gustavo Ribeiro, o termo faz referência a fatores fisiológicos das aves combinados ao aumento do consumo durante o período religioso.
“Durante a Quaresma é comum observar uma ‘falta’ de ovos no mercado, mas isso ocorre principalmente pelo aumento da procura. Tradicionalmente, o período influencia o consumo, especialmente entre os católicos, que costumam reduzir o consumo de carne vermelha. Como alternativa proteica mais acessível, o ovo ganha destaque na mesa do brasileiro”, explica.
Segundo ele, o crescimento das vendas costuma ocorrer de forma gradual ao longo das semanas. “As vendas tendem a aumentar durante a Quaresma, com pico mais próximo da Semana Santa. Esse comportamento pode variar conforme fatores como o preço das proteínas concorrentes, o poder de compra do consumidor e o cenário econômico”, acrescenta.
O clima também exerce influência direta sobre a produção. “Fisiologicamente, nessa época do ano temos temperaturas muito altas, o que reduz a ingestão de ração pelas aves. Comendo menos, as galinhas acabam produzindo menos ovos. Por isso se fala em ‘greve das aves’”, afirma Ribeiro.
Minas Gerais possui um plantel estimado em cerca de 21 milhões de galinhas e produção anual aproximada de 6 bilhões de ovos. Ainda assim, a combinação entre maior consumo e leve retração produtiva contribui para a pressão sobre os preços.
Carne bovina não deve ficar mais barata
Enquanto ovos e peixes ganham espaço nas mesas durante a Quaresma, a expectativa de queda no preço da carne bovina não deve se confirmar neste período.
Segundo o presidente do Sinduscarne, Pedro Braga, a recente valorização da arroba limita recuos no curto prazo.
“A carne de boi não deve ficar mais barata neste período. A arroba do boi gordo chegou a R$ 340 em fevereiro, de acordo com o Cepea, o maior valor desde novembro de 2024. Com essa alta recente, não há espaço para uma queda significativa durante a Quaresma”, afirma.
Ele ressalta ainda que o peixe costuma registrar aumento médio de cerca de 15% no preço durante o período, impulsionado pela maior procura. Outras proteínas, como suína e de frango, podem apresentar ajustes pontuais conforme o comportamento da demanda, mas o mercado não é influenciado apenas pela tradição religiosa.
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