Temperaturas elevadas também pressionam consumo de energia
A onda de calor que atinge Minas Gerais movimenta diferentes setores da economia. Enquanto bebidas refrescantes, sorvetes e serviços de climatização registram aumento da demanda, o calor eleva o consumo de energia e traz desafios para segmentos como alimentos e café. As mudanças também exigem respostas rápidas da indústria e da logística para acompanhar o comportamento dos consumidores.
O cenário ocorre enquanto 623 municípios mineiros estão sob alerta vermelho do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), classificação de grande perigo. Em Belo Horizonte, a temperatura chegou a 35,6°C no domingo (27), maior marca registrada na capital em 2026. Segundo a Defesa Civil municipal, um novo recorde pode ser registrado ainda nesta semana.
Calor aumenta consumo de energia
Nas residências, um dos principais impactos está no uso mais intenso de aparelhos de ar-condicionado. Segundo o coordenador de Energia da FIEMG, Sérgio Pataca, embora outros equipamentos possam ter potência maior, a climatização pesa na conta devido ao longo período de funcionamento.
“O chuveiro pode ter uma potência maior, mas fica ligado por poucos minutos. Já o ar-condicionado pode funcionar por oito horas ou até durante toda a noite. Em períodos de muito calor, esse uso pode aumentar o consumo residencial entre 30% e 40% e, dependendo da intensidade, chegar a dobrá-lo”, explica.
Pataca estima que um aparelho ligado oito horas por noite poderia representar cerca de R$ 240 a mais na conta mensal, considerando uma referência de R$ 1 por hora. O valor, ressalta, varia conforme o equipamento, a eficiência energética e o tempo de utilização.
No comércio e na indústria, os efeitos dependem da atividade. Empresas de alimentos e do setor farmacêutico, por exemplo, podem precisar manter equipamentos de climatização e sistemas de controle de temperatura funcionando por períodos prolongados.
Procura por manutenção de ar-condicionado dispara
O aumento da utilização dos aparelhos também movimenta o mercado de serviços especializados. Segundo Caio Alexandre Evangelista, instrutor de Formação Profissional de Refrigeração e Climatização do SENAI Américo René Giannetti, na Lagoinha, a procura por manutenção e instalação de condicionadores de ar cresce significativamente durante os períodos de temperaturas elevadas.
“Nesse período, há um aumento médio de 150% nas solicitações de manutenção e instalação de condicionadores de ar”, afirma.
Para Evangelista, a demanda reforça a necessidade de profissionais qualificados. Ele também recomenda que os aparelhos sejam regulados em torno de 24°C, evitando temperaturas excessivamente baixas, que podem aumentar o esforço do equipamento sem acelerar a climatização do ambiente.
A instalação e a manutenção adequadas também contribuem para a eficiência e a vida útil dos sistemas.
Bebidas e sorvetes ganham espaço
Na indústria de alimentos e bebidas, os efeitos do calor são diferentes conforme a categoria. Bebidas, sucos, cervejas, sorvetes e gelatos estão entre os produtos que tendem a ser beneficiados pelas altas temperaturas.
“São oportunidades para a indústria de alimentos, principalmente a indústria de bebidas, sucos e a indústria de sorvete”, afirma Vinícius Dantas, presidente da Câmara da Indústria de Alimentos e Bebidas da FIEMG.
O aumento da procura, entretanto, exige agilidade da indústria e da distribuição. Em períodos de calor intenso, manter os produtos próximos dos consumidores e garantir condições adequadas de transporte e conservação se torna ainda mais importante.
No mercado de sorvetes, a procura já apresenta crescimento. Segundo Wander Bertolace, presidente do Sindsorvete-MG, as vendas aumentaram mais de 30% entre julho e agosto e podem avançar entre 30% e 40% de agosto para setembro.
Caso as temperaturas permaneçam elevadas e não ocorram chuvas intensas, o consumo no pico do verão pode ficar entre 70% e 75% acima dos meses de maio a agosto, segundo a entidade.
Cerveja é uma das categorias mais sensíveis ao calor
No setor de bebidas, o impacto das temperaturas também aparece nas vendas. Cristiano Lamego, superintendente do SindBebidas-MG, cita levantamento da Scanntech segundo o qual cada aumento de 1°C na temperatura média pode elevar em 4,1% o volume de vendas de bebidas mais sensíveis ao calor.
Em episódios de calor atípico, com temperaturas entre 3°C e 5°C acima da média, o setor registra projeções de crescimento entre 12% e 20% nas vendas em comparação com períodos de temperatura normal.
Água, isotônicos, energéticos, refrigerantes e cervejas estão entre as categorias favorecidas. No caso da cerveja, Lamego afirma que cada 1°C adicional pode representar aproximadamente 5% de aumento nas vendas da categoria.
Por outro lado, produtos mais associados a temperaturas amenas podem perder espaço. Segundo o superintendente do SindBebidas-MG, os vinhos podem apresentar retração próxima de 10%, enquanto bebidas destiladas também tendem a registrar queda durante períodos de calor intenso.
Café está entre os produtos que exigem atenção
O calor também produz efeitos negativos em algumas cadeias produtivas. Chocolates, bebidas achocolatadas, café, pão e vinho estão entre os produtos que podem perder demanda durante períodos de temperaturas elevadas.
No café, o impacto vai além do consumo. Segundo Sérgio Meirelles, presidente do Sindicato da Indústria do Café de Minas Gerais (Sindicafé-MG), o calor intenso aumenta a perda de água pelas folhas dos cafeeiros e pode comprometer a floração.
A situação exige atenção também diante do período de plantio, mais indicado entre outubro e dezembro, quando começa a estação chuvosa.
Depois da colheita, o armazenamento é outro ponto de preocupação. O controle das condições de conservação é necessário para preservar a qualidade dos grãos.
“Normalmente o cafeicultor vai beneficiando e transfere os cafés para armazéns e cooperativas e, como é um produto de alto valor agregado, não é recomendado mantê-lo nas propriedades”, explica Meirelles.
Os diferentes efeitos mostram que a onda de calor altera não apenas os hábitos dos consumidores, mas também a dinâmica da indústria mineira. Energia, demanda, conservação de produtos, matéria-prima e logística passam a exigir estratégias específicas de acordo com cada segmento.
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