Cicatrizes de guerra jamais desaparecem

Proseando com Ricardo Souza

Cicatrizes de guerra jamais desaparecem

   Pouco antes da pandemia, estive na Suécia, país onde moram minha filha, meu genro e meus netos. Viajar pela Europa pode parecer, para alguns, algo fascinante pelas belas paisagens, museus e  lindas cidades. Mas, para mim ela sempre representou resiliência, resistência e reconstrução.

   Europa é um continente que sempre sofreu os horrores da guerra desde antes das invasões romanas, dos mouros e até mesmo entre povos de países e reinos do próprio continente. As grandes guerras mundiais no século passado, deixaram cicatrizes dolorosas e, ainda que me entusiasme com as belezas, busco sempre os detalhes de cada sutura dessas cicatrizes. Em cada cidade que passo, busco uma referência, um marco, um detalhe, que possa representar a verdadeira história européia cunhada pelas guerras.

   Eu e minha esposa caminhávamos sob o frio do início de dezembro na cidade de Malmö, quando ouvimos uma sirene cujo som era difícil de determinar de onde vinha. Parecia que vinha do céu. Imediatamente, minha espinha gelou ainda mais que o próprio frio e me reportei aos tristes momentos da Segunda Grande Guerra. Chamei minha filha ao telefone assustado com o que aquilo poderia significar, apesar de constatar o semblante das pessoas nas ruas que pareciam tranqüilas e acostumadas com aquele som que durou alguns minutos. Minha filha me tranqüilizou dizendo que era um exercício mensal de alarme de invasão aérea ao território sueco. E que ali mesmo em seu bairro, existiam dezenas de abrigos com provisões para que os moradores possam se refugiar de um ataque, até mesmo nuclear. Mais uma ferida que continua gritando nos céus dos países europeus.

   Hoje vemos, mais uma vez, a Europa ameaçada por uma disputa de testosteronas descontroladas. Como brasileiro, não vivi os horrores das guerras. Mas, algo sempre me fascinou ao ponto de, se existe alguma possibilidade de haver reencarnação, certamente vivi e morri no palco de guerra europeu nos anos 1940. Incrível acreditar que chegamos a um ponto de desenvolvimento humano onde ainda se impõem os poderes pela supremacia militar. Difícil entender que a ameaça do uso da força militar é que garante a paz.

   Hoje estamos assistindo ao desequilíbrio. Ainda que por aqui nos informemos apenas com as narrativas do ocidente, difícil crer que não exista uma saída diplomática para os problemas entre as nações. Tenho medo de que as sirenes, que agora soam de verdade sobre a Ucrânia, voltem a soar por toda a Europa.

Até a próxima!

As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do portal Balcão News.

  • Luiz Madrid
    Luiz Madrid
    Ricardo, que belo texto! Eu também sinto esse medo de acreditar que à preço de civis, uma coisa que pensávamos que tinha sido aprendida, está se repetindo, uma infeliz perda mundial. Pelo contrario, as estratégias e tecnologias se avançaram. Quantos escritores, leitores, criadores, seres humanos que potencialmente estão no meio deste conflito. Infelizmente, isso pode tornar um problema que se estendera alem da Europa. Vamos esperar o melhor resultando.
    3 months atrás Responder  Curtir (1)
  • Luiza Cristina  da Silva e Souza Miranda
    Luiza Cristina da Silva e Souza Miranda
    Muito bom, meu irmão. Texto maravilhoso, a despeito do conteúdo, inacreditavelmente real. Atual. Assustador.
    3 months atrás Responder  Curtir (1)
  • Helio Brasil
    Helio Brasil
    Ainda jovem, acompanhei nos jornais, rádios e cinemas, o deflagrar até o final da 2a Grande Guerra (1939-1945). Sempre torcemos pelos aliados, pela FEB e, sobretudo, pela Vitória dos ALIADOS, inclusive vibramos quando os Nazistas foram sendo varridos da entáo URSS... A terrível BOMBA acabou com o domínio nipônico no Pacífico. NAZISMO derrotado, de novo rilham os dentes americanos e russos... No meio tempo, Coreia, Vietnan, Oriente Médio, IRAK, IRAN. Não creio na 3a Guerra Mundial, pois não sobrará NADA!!! UM GRANDE SANATORIO/HOSPICIO para a humanidade!!!!
    3 months atrás Responder  Curtir (1)
  • Fran Pynkus
    Fran Pynkus
    Para algumas questões que envolvem interesses continentais, uso de uma simples máxima...Consulte a história. Sabe-se o quanto se joga sujo desde os primórdios...Difamação, assassinatos, mentiras, manipulação da realidade,chantagem e traição...São mecanismos do vale tudo. Na 1° guerra com o assassinato do Granfuque Ferdinando, o assassinato da família do Czar, a demora americana em entrar na guerra...Na 2° OS acordos da Alemanha com a Inglaterra e França que não passaram de blefe, a exploração das questões judaicas e mussulmanas, as disputas de território que nem chegam ao nossos conhecimentos por este mundo afora. Ou seja!,Vemos mentiras serem transformadas em verdades dependendo dos interessados. Pergunto? - Como será se a Europa sucumbir a sutil pressão de Putin através do gás? Como ficaram outros países,que sob ameaças externas teem seus interesses e territórios desejados por outrens? O quanto s OTAN será omissa? O momento é mesmo assustador.
    3 months atrás Responder  Curtir (1)
  • Natanael Gomes de Alencar
    Natanael Gomes de Alencar
    Excelente crônica. E pertinente ponto de vista. Entre nós a metáfora do Inferno se concretiza. Desde os tempos pré-históricos nossa maquiagem civilizacional cede pra revelar os bárbaros, em sentido "infame" que somos.
    3 months atrás Responder  Curtir (1)

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Ricardo Souza é escritor, mentor de escritores, palestrante publicitário, editor do Selo Editorial Neblina Negra e da Lenari Editores Associados. Dirigiu agências de publicidade no Rio e em São Paulo, como diretor de criação e operacional. Professor convidado em cursos de graduação e pós-graduação. Foi colunista em vários jornais e country manager em empresa internacional de mídia impressa. Tem livros publicados e participa de várias antologias. Tem mais de 1.000 alunos formados em seus cursos e workshops de escrita criativa.