Fim de domingo

Proseando com Ricardo Souza

Fim de domingo
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As noites de domingo sempre me incomodaram. Desde pequeno, o som da abertura do Fantástico me trazia uma grande agonia em pensar que o domingo já estava em suas horas finais. Muitas décadas se passaram, mas mesmo não mais vendo TV aberta, os finais de domingo me deixam uma tristeza aprendida com o condicionamento da melancolia de tantos domingos ( no meu caso, já vivi mais de 3.200 deles). Lembro que faz algum tempo, expressei esse sentimento com o texto que se segue. Não sei se você, amigo leitor dessa coluna, compartilha das mesmas impressões. Espero que não. Não são boas, mas nos fazem pensar. Um grande abraço e boa leitura!

Resisto. Resisto ao sono que insiste em me dominar. Já passa de meia noite e, daí já é segunda feira. Mas insisto em prolongar o domingo. Segunda será só depois que eu acordar. A rotina da semana que começará daqui a pouco já me deixa incomodado. A dureza das obrigações, do trabalho, das contas, da falta de tempo para nada fazer, ou de fazer aquilo que se gosta, me tira a paz. Paz que tenho agora, sozinho diante de mim mesmo, sem máscaras ou sem personagens. A azia sobe pela minha garganta me lembrando dos excessos intermináveis de bebidas e comidas dominicais, mas isso não me soa ruim. Mas ainda há tempo de mais uma dose pois o meu domingo deve continuar. Nem que por mais um gole. Preencho o vazio que os problemas deixam em minha vida, como meteoros que abrem crateras em solo fértil, escrevendo, ouvindo e vendo coisas que me enchem a alma. E que me emocionam. Sei da inevitável responsabilidade das coisas que virão com a segunda feira. Mas, olhando-as daqui, do alto de minha alma plena de criatividade, sedenta de arte e estética, sempre em busca do sentido mais puro de minha existência, vejo que são coisas menores, mas tal qual cupins, nos corroem a vida. O sono arde em meus olhos. O tictac interminável do relógio agora soa mais alto. O silêncio me faz ouvir minha alma vibrando e me faz perceber a impossibilidade de que a busca por este acúmulo de informações, experiências e compreensão do que realmente sou possa terminar um dia. Não. Além do legado que deixamos com nossos filhos, da interação com outras pessoas, do que ensinamos, do que construímos, do que produzimos, do que plantamos e que ficarão para outras gerações, percebo cada vez mais que no final, levaremos esta bagagem intangível do conhecimento para algum lugar que só reconheceremos na hora final. E que será o nosso ponto de partida para uma outra viagem.

As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do portal Balcão News.

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Ricardo Souza é escritor, mentor de escritores, palestrante publicitário, editor do Selo Editorial Neblina Negra e da Lenari Editores Associados. Dirigiu agências de publicidade no Rio e em São Paulo, como diretor de criação e operacional. Professor convidado em cursos de graduação e pós-graduação. Foi colunista em vários jornais e country manager em empresa internacional de mídia impressa. Tem livros publicados e participa de várias antologias. Tem mais de 1.000 alunos formados em seus cursos e workshops de escrita criativa.