Ricardo Alves traça o bom e o ruim dos gigantes do futebol mineiro

Mestre em gestão esportiva analisa o cenário dos clubes após um ano turbulento com o Coronavírus.

Ricardo Alves traça o bom e o ruim dos gigantes do futebol mineiro
Acervo Pessoal
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O ano de 2020 já ficou para trás, mas a temporada do futebol brasileiro chegará ao fim apenas este mês, quando conheceremos os campeões da Série A e da Copa do Brasil. Olhando para o nosso estado, os três gigantes já podem fazer uma avaliação de como foi a corrida pelos objetivos em um ano marcado pela presença do Coronavírus. América e Cruzeiro já encerraram suas participações na Segunda Divisão, com apenas o Coelho alcançando a vaga para a elite nacional. Já na Série A o Galo terá mais cinco jogos para correr atrás do título, porém com a vaga na Copa Libertadores praticamente sacramentada.

Para analisar o cenário atual do futebol mineiro o Balcão News conversou com o professor e pesquisador Ricardo Alves, mestre em gestão esportiva pela Universidad Europea de Madri, que ponderou detalhes da caminhada de América, Atlético e Cruzeiro nestes últimos anos e teceu comentários sobre como ele observa a administração dos clubes na última década, o que se pode esperar para os próximos anos, e o que a pandemia afetou no cotidiano e planejamento das equipes.

BN: Como você analisa o cenário de Atlético, América e Cruzeiro em termos de gestão.

Ricardo Alves: É difícil falar, criticar os principais clubes de Minas Gerais e ser o mais honesto possível sem ter todos os dados que envolvem a gestão destes clubes. É muito comum que o torcedor, bem como a mídia em geral, analise sempre os grandes fatos e deixem de lado muitos aspectos importantes.

Palmas para o Alviverde

Assim, tentando respondê-los de forma objetiva, acredito que no cenário atual o grande destaque é sem dúvidas o América. O Coelho tem apresentado nos últimos anos uma consistência gerencial importante e isto tem sido traduzido em resultados esportivos. O América tem se dedicado a cumprir com o que se prega no “fair play financeiro” que seria gastar apenas aquilo que se ganha dentro de um período orçamentário. Em outras palavras, vale destacar que o América utiliza o orçamento não apenas como peça de planejamento, mas acima de tudo como norteador do que se pode gastar ao longo do ano. Outros fatores fortemente presentes no modelo de gestão do América é a participação ativa do seu conselho gestor no processo decisório e ainda, a busca constante por profissionais de mercado via processos de contratação, deixando de lado a colocação de pessoas apenas pela indicação. Claro que precisamos chamar a atenção de que o América em um processo comparativo com Cruzeiro e Atlético, possui alguns facilitadores como uma estrutura menor, número menor de colaboradores e uma pressão menor dos stakeholders como torcida, mídia e conselheiros.

Os questionamentos do investimento atleticano

O Atlético tem realizado mudanças importantes nos últimos dois anos buscando melhorar sua performance. Entretanto, na minha opinião, ainda falta transparência no seu processo de investimentos o que pode tornar o clube muito vulnerável. Não se sabe muito bem qual o potencial de investimento o clube realmente possui e o orçamento virou, nos últimos anos, uma peça de decoração. O Atlético possui um passivo (dívida) muito alto e ainda não foi apresentado um plano claro de como seria feito o equilíbrio entre o faturamento do clube e extinção desta dívida. O que se apresenta hoje é um time competitivo, pensando alto nas competições que disputa e com alto investimento de apoiadores, mas que não utilizam o fluxo financeiro do próprio clube para tais gastos. Isto pode ser comemorado no curto prazo, mas deveria vir com um processo mais transparente para que as pessoas pudessem entender como esse investimento será pago. Por enquanto ficam apenas as especulações.

Sinal de alerta na Toca

Já o Cruzeiro tem problemas muito graves como consequência de decisões de sua gestão. Desde meados de 2019 estes problemas foram publicizados a partir da “famosa” reportagem do Fantástico que trouxe à tona decisões equivocadas, e até criminosas, de alguns antigos gestores do clube. Entretanto, preciso chamar a atenção para que possamos perceber que os problemas da Raposa foram expostos e potencializados na gestão do ex-presidente Wagner Pires, mas que já vinha apresentando déficit em todos os anos da última década. Na prática, se você acumula déficits em anos seguintes, você diminui a sua capacidade de fazer a organização funcionar em todos os seus aspectos e ainda perde credibilidade no mercado. Assim, dos clubes mineiros o Cruzeiro é aquele que terá o maior desafio em sua gestão. Primeiro, por ser o único destes clubes a disputar a série B, competição que traz retorno financeiro muito mais baixo do que aqueles clubes que estão na série A como o América e Atlético.

BN: Atlético e Cruzeiro estão vivendo momentos opostos, dentro e fora de campo. Acredita que algum deles esteja seguindo um caminho com maiores esperanças para os torcedores, pensando na saúde interna do clube?

Ricardo Alves: Então, o Cruzeiro teve uma exposição negativa muito grande nos últimos dois anos, tanto no aspecto financeiro como no aspecto desportivo. O clube que foi o principal vencedor em torneios nacionais na década passada, mas não conseguiu manter o equilíbrio financeiro com suas conquistas. E para piorar, caiu de divisão no futebol nacional e não conseguiu se reerguer no ano seguinte. Vieram punições desportivas por dívidas e o seu processo de reconstrução ficou muito prejudicado por conta da manutenção do clube na Segunda Divisão por mais uma temporada. Isso acaba gerando um faturamento anual muito menor do que um clube grande e de estrutura maior necessita para sua sobrevivência.

Já o Atlético, que também conseguiu grandes resultados esportivos na primeira metade da década passada, vive um momento de grandes transformações. O Clube decidiu pela construção de estádio próprio e agora vem recebendo aportes importantes advindos de parceiros que estão contribuindo para o fortalecimento do clube no aspecto esportivo e da sua gestão. Entretanto, ainda temos muitas dúvidas sobre o que realmente acontece dentro do clube, visto que o orçamento continua não sendo observado nas decisões que são tomadas pelos gestores do clube. É fato que a criação da Arena MRV melhora a perspectiva do clube em médio e longo prazo. Mas do ponto de vista gerencial, existem gastos sendo realizados no clube que não fazem parte dos valores organicamente realizados pelo clube. Assim, não se sabe se estes investimentos são sustentáveis ao longo do tempo. O risco é parecido com aquele que o Cruzeiro corria quando fizeram investimentos sem lastros de retorno. Investir em algo que não gera retorno vira apenas gasto e contribui negativamente para o desenvolvimento do clube.

BN: É possível destacar atitudes, sejam elas positivas ou negativas, na gestão dos clubes mineiros?

Ricardo Alves: Alguns exemplos que ajudam a entender como os clubes estão organizados do ponto de vista gerencial:

- O América tem um conselho gestor atuante que avalia e ajuda na coordenação nas decisões mais importantes daqueles que estão à frente da gestão do clube. Outro exemplo é o uso constante do Linkedin e agora de uma empresa especializada em contratação de pessoas e executivos para compor suas vagas de trabalho, eliminando assim aquelas indicações puramente políticas para ocupar espaços na gestão do clube.

- O Cruzeiro tem hoje impedimento de contratações por uma dívida com uma empresa que intermediou um processo de contratação de um atleta que jogou muito pouco no clube e que teve seus direitos esportivos já negociados com o exterior. Além disto, o Cruzeiro perdeu 06 pontos para a disputa da serie B no ano de 2020 pelo não pagamento de um empréstimo de um atleta que também pouco atuou pelo clube. Ou seja, exemplos como estes mostram uma total inércia do clube no que tange a excelência na Gestão.

- O Atlético tem feito alterações nos últimos dois anos com a chegada de profissionais de mercado para uma atuação mais consoante com as necessidades impostas pelo mercado. Cito aqui, por exemplo, a chegada do Leandro Figueiredo no setor de novos negócios e a chegada do treinador Jorge Sampaoli... Mas talvez o grande exemplo é a construção da Arena MRV que poderá melhorar a receita do clube de forma muito grande e ainda potencializa a marca do clube no mercado, aumentando sua credibilidade e melhorando a capacidade de absorver novos investimentos.  

BN: Como você viu acompanhou achegada da pandemia no futebol? Quais foram suas consequências e como os clubes devem se portar para não sofrerem tanto nesta retomada?

Ricardo Alves: A chegada da pandemia trouxe inúmeros problemas a todos os clubes, principalmente pela ausência do público nos estádios e a dificuldade de engajamento do torcedor em períodos que os campeonatos ficaram paralisados. Do ponto de vista social, temos sempre que reconhecer a tragédia com as mortes de tantas pessoas no Brasil e no mundo. O futebol sempre foi uma manifestação de agrupamento e aglomeração e que precisou mudar os seus rumos em 2020 e terá que se reinventar a partir de agora.

Por outro lado, houveram aprendizados importantes sobre o uso das redes sociais, dos canais digitais e principalmente do papel do clube e sua relação com o novo torcedor de futebol. Nunca se produziu tanto conteúdo como agora. Novos canais institucionais surgiram para acompanhar as notícias e jogos dos times, e com isso as organizações esportivas perceberam que as novas tecnologias precisam ser incorporadas em todos os processos.

Mas o principal impacto para o setor ainda é perda financeira e esportiva pelos nossos clubes, devido a ausência da torcida. No caso do América e do Atlético, podemos considerar que a falta de público no período de pandemia foi apenas financeira, pois mantiveram bom desempenho esportivo. Entretanto, quando analisamos o Cruzeiro, percebeu-se, além da perda financeira, uma dificuldade muito grande em ser competitivo em seus domínios quando não há a presença da torcida. A Raposa teve um aproveitamento em seus domínios muito baixo, sendo que historicamente sempre foi um clube forte quando jogava em Belo Horizonte. Sem o apoio do torcedor, o time celeste não conseguiu voltar a Série A, o que gera um efeito negativo de perdas financeiras muito grande.

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CONHEÇA NOSSO ENTREVISTADO: Ricardo Cesar Alves é professor na PUC MINAS, dos Cursos de Especialização (Pós Graduação) nas disciplinas de Estratégias Organizacionais, Introdução a Gestão Esportiva, Gestão empresarial, Gestão Estratégica e Planejamento de Marketing; Professor de Graduação nos cursos de Administração e consultor de empresas e organizações esportivas;

✓ Mestrado em Gestão Esportiva – Máster Universitario en Dirección de Entidades Deportivas MBA – Universidad Europea de Madrid / Real Madrid - 2018
✓ Doutorado em Estratégias Organizacionais – UFLA - 2012
✓ Mestrado em Administração - Estratégia e Competitividade de empresas - 2008
✓ Pós Graduação em Gestão Estratégica de Marketing - 2000 ✓ Graduação em Administração de Empresas -1998