Sagrado folclore, profanas festas

Coluna Estrada Real

Sagrado folclore, profanas festas
Semana Santa/Rony Flávio

Se os bens artísticos e monumentais - obras arquitetônicas, obras esculpidas ou pinturas - são objetos de tombamento por parte das instituições responsáveis pelo patrimônio histórico, as manifestações culturais também podem ser tombadas.

Existe hoje uma maior compreensão sobre a abrangência do conceito patrimônio histórico e cultural: as tradições orais, festas populares, folclore, música, dialetos e até gastronomia são os chamados patrimônios imateriais, que podem (e devem) ser tombados.

Os festejos religiosos ao longo dos caminhos da Estrada Real contribuíram, e ainda contribuem consideravelmente para a formação cultural, social e política de Minas Gerais e do Brasil. Para os moradores, as festas são momentos de reviver, festejar e reverenciar a memória e preservar vivos esses patrimônios intangíveis.

Para os turistas, é uma ótima oportunidade de embarcar na história por meio de sons, danças e costumes típicos. Quem explora o Caminho Novo não pode deixar de participar da Folia de Reis em Matias Barbosa (MG). Festa religiosa de origem portuguesa que reproduz a viagem dos Reis Magos. Todo fim de ano, grupos de cantadores percorrem a cidade entoando versos: “Ó de casa, ó de casa / Alegra esse moradô / Que o glorioso santo Reis / Na sua porta chegô”.

Os moradores recebem os festeiros que dançam ao som do violão, do pandeiro e do cavaquinho. Oferendas são bem vindas — seja um cafezinho, uma dose de cachaça, um prato de comida ou uma contribuição para a Folia de Reis. Os foliões deixam em troca a alegria, a fé, bandeiras coloridas e santinhos.

No Caminho dos Diamantes, as festividades acontecem em todos os períodos do ano. Em Milho Verde, a Folia de Reis também faz visitas às casas, decoradas com presépios, em um belo cortejo musical. No mesmo mês, São Sebastião é homenageado no Serro, enquanto em junho, a festa de Santo Antônio toma conta de Santo Antônio do Norte. Junho também é o mês do Jubileu de Bom Jesus de Matosinhos, que leva milhares de fiéis para Conceição do Mato Dentro.

Pelos caminhos os festejos iluminam as cidades em diferentes ocasiões. Diamantina é a cidade das serenatas. “Uma serenata em Diamantina é mais bela que uma noite de trovadores em Nápoles. A cidade toda canta, despreocupada, diluindo na beleza dos sons as angústias comuns da vida”. A frase é de Juscelino Kubitschek, presidente do Brasil eleito em 1955 e que nasceu na cidade. A qualquer momento surge pelas ruas, ladeiras e becos, alguém a tocar e a cantar.  

A mais famosa manifestação musical da cidade é a Vesperata. Dois sábados por mês, de março a outubro, as sacadas dos casarões no largo da Quitanda se transformam em palcos para a Banda de Música do 3º Batalhão de Polícia Militar e para a Banda Sinfônica Mirim Prefeito Antônio de Carvalho Cruz. A plateia assiste da rua o espetáculo com a música vindo de todas as direções. Quase que confundido com o público, fica o maestro, que do meio da multidão rege a apresentação. Aos poucos, quem está sentado, se levanta para dar coro aos instrumentos. Noites em que Diamantina canta a sua história.

Dos festejos, de imemorial tradição, o Congado é de uma importância ímpar no que se refere à fé religiosa e à grandiosidade da cultura popular brasileira. Ele acontece quando cidades e vilas se tornam teatros que recebem os desfiles de reis e rainhas do Congo. É a Festa de Reinado, de tradição afro-brasileira com devoção a Nossa Senhora do Rosário. Minas tem a maior concentração de congadeiros do país, segundo a Federação dos Congados do Estado, sendo que o primeiro registro do evento data de 1711. Nos caminhos reais há sempre devotos prontos para mais um Reinado. Na definição do escritor Mário de Andrade o congado é um “teatro musical” — grandes bailados regados à música, religiosidade e história. Entra-se no Ciclo do Rosário no princípio de agosto, ainda que algumas manifestações aconteçam em períodos diferentes, como no Serro — final de junho — e em Conceição do Mato Dentro, no começo de janeiro.

Ouro Preto, por sua vez, vive o mito de Chico Rei, um personagem que, segundo a tradição, era o rei de uma tribo no reino do Congo e foi trazido como escravo para o Brasil. Conseguiu comprar sua alforria e a de outros conterrâneos graças a seu trabalho. Assim, ele tornou-se "rei" em Ouro Preto. Sua história é lembrada todo ano na cidade. No primeiro dia do ano, o Congado de Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia ergue suas bandeiras. O encerramento acontece com um grande cortejo que vai da Igreja de Santa Efigênia à Mina de Chico Rei, onde os reis coroados são homenageados. Outras cidades também mantém viva a tradição do Congado, dentre elas Couto Magalhães, São João Del Rei e Tiradentes.

Na antiga Vila Rica o que não falta são manifestações populares seculares. Entretanto, o destaque vai para a Semana Santa, em Abril, quando a cidade já está recuperada da folia do tradicional carnaval e vira um palco inabalável de fé. Para receber as procissões, as ruas são cobertas por tapetes feitos com serragem colorida e decorados com flores. São os moradores que criam os tapetes e os turistas são convidados a completar a confecção deles. Em Junho, no Corpus Christi, as ruas também são cobertas pelos tapetes de serragem e novamente se transformam em palcos das celebrações. Nos distritos próximos também acontecem celebrações, como as cavalhadas de Amarantina, na Festa de São Gonçalo — um dos ricos marcos do patrimônio imaterial do município. 

Na Serra do Cipó, na área rural do município de Jaboticatubas, uma tradição é mantida viva por meio de muita fé e música: é o Candombe. Lá encontra-se a comunidade quilombola do Açude Cipó, onde vivem várias famílias descendentes dos escravos. As comemorações, geralmente no último sábado de Maio e no segundo sábado de Julho e de Setembro, são regadas a muita música — com caixas de percussão, denominadas tambu, confeccionadas por antigos moradores no final do século XIX. Nas festividades, orações são repetidas várias vezes para agradecer a Nossa Senhora do Rosário por todas as bênçãos concedidas à comunidade. Antes do Candombe começar, deve-se fazer a reza, obrigatória, ao som de violas e cavaquinho. Qualquer pessoa, mesmo quem não pertence à comunidade do Açude, pode entrar na roda e participar. É servido bolo de fubá para os convidados e a tradicional cachaça mineira.

As festas folclóricas são um meio de se conhecer a essência cultural do povo e vivenciar a Estrada Real! Estrada Real: Uma estrada, seu destino!

Vesperata / Arquivo IER