A arte do Grafite e o vandalismo na Pichação: O Grafiteiro
Entre a antipatia pelo pichador e a admiração pelo trabalho do grafiteiro, conversamos com o artista sergipano Felipe Araújo Franco de Oliveira, o Cr1OnE, a propósito de sua participação no evento proposto pelo Real Grapixo: Sopa Nacional; e sobre o que é, ou pode ser, o Grafite segundo ele
Aproveitando o momento ocorrido em julho deste ano, reunindo artistas do grafite do país inteiro em Belo Horizonte a fim de produzirem, juntos, um extenso painel ao ar livre, o tema relacionado à relevância da arte na vida cotidiana parece justo e vital de alguma forma.
Pois nada mais cotidiano do que sair de casa e dar de cara com paisagens urbanas. E para cada direção que desviar o olhar, verá prédios e concreto que delimitam passagens e pontos de vista para estranhos aos respectivos proprietários destes locais.

E para cada muro vazio de propaganda ou meramente pintado de cor estática, imagine uma “tela em branco” para alguém tecnicamente capaz, criativo e determinado a realizar algo com o uso de tinta em spray.
Logo, no cerne deste conceito, surgiu o grafite tal qual o adepto desta arte o concebe.
Remontando ao Império Romano e até mais atrás nos milênios, com vestígios arqueológicos encontrados em variados sítios, o costume de cravar um pensamento tornando o mesmo público antecede qualquer vestígio de resina acrílica sinteticamente concebível.
Seja uma muralha, encosta de cavernas ou quadras inteiras de um bairro, exprimir em desenhos ou letras uma ideia é a essência fundamental tanto do grafite quanto do “pixo”. (Ainda que seja tênue o limite entre este último e a malfadada pichação.)

Felipe Araújo foi selecionado para a 2ª edição do Sopa Nacional, e dentre os 100 participantes de todo o Brasil, coube a ele também preencher uma parcela do muro da ASMARE (Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis) com letras estilizadas ou ilustrações variadas, definindo estas o estilo de cada artista presente.
A primeira edição ocorreu em 2019, no Aglomerado da Serra.
O evento foi idealizado e levado adiante pelo coletivo Real Grapixo, reunindo artistas de outras vertentes da música (DJs) e rap, observando naturalmente a essência da cultura hip-hop, do bom convívio e, diria, companheirismo, dos grafiteiros reunidos e unidos em prol de um ideal.

O grafite existe derivado do movimento hip-hop, que por sua vez surgiu na década de 70, em Nova Iorque (sobremaneira no bairro do Bronx), como forma de expressão e protesto dos jovens à época.
Atualmente, é reconhecido mundialmente possuindo espaço e prestígio mesmo em galerias de arte com renome e notável curadoria estética.
Antítese a isto, a pichação é criminalizada pela sua consumação em bens públicos e privados.

Derivada da egocêntrica necessidade de validação por parte de um grupo ou de afirmação de uma personalidade necessitada de atenção (talvez carente de maiores entusiasmos diários), a ação de pichar desmerece e aflige quem é cioso de ordem e higiene, pois representa uma mácula: muitas vezes depredando um espaço através de invasão de propriedade particular (casas, comércios, apartamentos).
Não havendo consentimento de quem se considera vítima, ainda gera prejuízo financeiro e constrangimento por parte desta respectiva entidade ou indivíduo.
Portanto, é delito previsto na Lei de Crimes Ambientais (Lei n° 9.605/98), artigo 65, onde a pena é detenção de 3 meses a 1 ano… mais multa.

E caso o ato seja em monumento ou patrimônio histórico, a pena é calculada em 6 meses a 1 ano de detenção e multa.
Com isto, pego em flagrante ou denunciado à revelia de seu caprichoso ato de virar sombra na noite, o pichador pode ser obrigado a reparar os danos materiais e morais (o que equivaleria a pedir desculpas? Aqui a subjetividade entra em jogo e tudo se torna menos legal e mais político, todavia).

Sabidamente utilizada como marca territorial ou exercício de rebeldia frente ao status quo, a pichação é deveras muito menos “artística” que o mais medíocre dos grafites, e mesmo o traço rudimentar não chamaria muita atenção não fosse a localização tática onde fora inscrita. Ainda que, por analogia, a grafologia de uma determinada pichação não somente pode inspirar como evoluir para um grafite extraordinário (ou “grapixo”, que se traduz simplesmente como a fusão da letra com as características da ilustração: cor, luz, sombra, contraste etc.).

Refinada esta letra ao ponto de fornecer sustento de corpo e de alma para um ser humano sensível, o que aparentemente é o caso do experiente Felipe, que se especializou em definir sua arte por meio de uma tipografia muito própria com a qual trabalha.

Contando os 33 anos de idade e 22 de grafite, ele nos conta em uma prosa de como se deu sua vinda para Belo Horizonte, sua carreira, a disciplina e a filosofia que segue em nome da Arte e também de seu grupo de assistência que ensina grafite em Sergipe, onde mora: o ThCrEW (Tinta Humilde Crew).
Confira abaixo a boa conversa com Cr1OnE, o Felipe Araújo:
Tiago Boson
- O colaborador Tiago Boson é multi-instrumentista autodidata, compositor, professor de música, pintor, ilustrador, escritor/poeta (não publicado).
- E-mail: bosontiago@gmail.com
- Instagram: @tiagoboson
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