Provocações filosóficas à política contemporânea
A pedidos, escrevo sobre o Galo com grande honra. No entanto, em meio às férias clubísticas, aproveito o intervalo para lançar algumas provocações filosóficas — reflexões que dialogam diretamente com os descalabros da política contemporânea.
Vamos a elas.
O discurso popular insiste em repetir que “o povo é oprimido pelos poderosos”. A afirmação, embora confortável, ignora uma realidade mais incômoda: grande parte da sociedade não apenas tolera a dominação, como a deseja. A história não é construída apenas por tiranos, mas também por massas conformadas que, em vez de lutar pela autonomia, optam por entregar a própria liberdade em troca de promessas fáceis e soluções simplificadas.
Maquiavel já advertia que o povo quer, sobretudo, “não ser oprimido”, mas raramente assume o fardo de pensar, escolher e agir por conta própria. O problema, portanto, não reside apenas nas elites que governam, mas também na população que implora por líderes que decidam em seu lugar.
Antes de tudo, o povo se torna escravo por escolha. Busca ser conduzido, espera por um salvador da pátria, por uma figura paternal que resolva os problemas enquanto ele permanece infantilizado e politicamente irresponsável. Essa renúncia à autonomia alimenta uma sociedade baseada nas aparências, exatamente como descreve Maquiavel: basta ao governante parecer virtuoso para manter as massas dóceis. “Todos veem o que pareces ser; poucos sentem o que és.” Em outras palavras, não se busca a verdade, mas o conforto emocional. Aceita-se a mentira bem contada, o discurso ensaiado e o espetáculo superficial, desde que não seja exigido esforço crítico ou coragem cívica.
A submissão, contudo, não é apenas emocional — é também moral. O povo terceiriza a ética. Cobra virtudes dos governantes, mas não se dispõe a praticá-las. Exige justiça, mas se afasta da política. Denuncia a corrupção, mas exalta o político “esperto”. Clama por mudanças, mas se recusa a abandonar a zona de conforto. Como alertava Étienne de La Boétie, aceita-se a servidão por medo da liberdade, pois a liberdade impõe deveres, sacrifícios e vigilância permanente. Em vez disso, prefere-se a alienação, o entretenimento raso e as distrações supérfluas, enquanto a estrutura de dominação permanece intacta.
Maquiavel também demonstrou que o poder não se sustenta apenas pela força, mas por mecanismos psicológicos: festas públicas, recompensas simbólicas, criação de inimigos imaginários e controle da moral coletiva. Tudo serve para manter o povo ocupado com o irrelevante, enquanto o essencial — o poder e as decisões políticas — segue concentrado nas mãos de poucos. O mais grave é a ausência de resistência efetiva. O que prevalece é a resignação, o cinismo e, sobretudo, a apatia.
A conclusão é incômoda, mas necessária: o povo é cúmplice de sua própria servidão. Aceita ser governado, manipulado e controlado, desde que não precise carregar o peso da liberdade. Quer estabilidade sem esforço, direitos sem deveres, transformações sem rupturas. A elite apenas entrega aquilo que o próprio povo espera: um messias, um pai, uma promessa conveniente, uma narrativa confortável. Quando esse “salvador” fracassa, a revolta é breve. Em seguida, aguarda-se o próximo nome, sem qualquer aprendizado, sem autocrítica, sem ruptura com o ciclo.
Não há tirano que se sustente sem o consentimento das massas. Não existe elite opressora sem um povo que se recusa a amadurecer politicamente. O povo não é vítima inocente; é agente da própria servidão. Enquanto continuar à procura de salvadores, em vez de assumir responsabilidades, permanecerá eternamente dominado — não por imposição, mas por conveniência. Afinal, no fim das contas, é sempre mais fácil ser súdito do que cidadão.
Né não?
Afonso Canabrava
Afonso Canabrava nasceu na Rua São Paulo há 5 quadras do campo do Galo, aonde foi criado e aprendeu a nadar, jogar futebol e outras avenças. Foi contemporâneo dos comentários “lesco-lesco” do Kafunga, da presidência de Nelson Campos e de jogadores como Ubaldo, Dario, Reinaldo e tantos outros. Nessa época comemorou o pentacampeonato Mineiro e do Brasileirão. Torcedor contra o vento diante de uma camisa do Galo dependurada no varal, é ferrenho crítico de futebol e todas as suas nuances.
Instagram: @afonsocanabrava
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