Existe o Galo: por que não, mascotes gatos nos times de futebol?

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Ilustração: IA.

Por que não, mascotes gatos nos times de futebol?

O vasto zoológico emocional do futebol brasileiro abriga, como mascotes: galo; raposa; coelho; urubu; porco e muitos outros. É um “mimo”, para arquibancadas lotadas e alambrados tremendo. Só falta um personagem da fauna urbana: o gato.

E não é por falta de mérito. O gato é ágil, elegante, silencioso quando convém e absolutamente indiferente à opinião alheia, qualidades raríssimas no futebol, onde tudo é grito, explicação e coletiva pós-derrota. O problema é justamente esse: o gato não combina com a liturgia da bola.

Imagine um clube anunciando solenemente seu mascote felino: o gato não entra correndo em campo, entra quando quer; Não abana o rabo para a torcida; não pula no alambrado; não canta o hino. Se o time perde, ele não sofre: lambe a própria pata, boceja e vai dormir em cima da tabela do campeonato e, de preferência, na parte que incomoda mais.

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O futebol brasileiro exige submissão emocional. O torcedor quer um mascote que represente: garra; luta; entrega e raça, mesmo que o time jogue retrancado e perca de um a zero com um chute torto aos 47 do segundo tempo, o gato não: o gato não promete raça, promete desdém; não luta até o fim, luta até se cansar; Depois, abandona o jogo e vai observar uma borboleta imaginária.

Há também o problema da hierarquia. Gatos não aceitam técnico: Ignoram pranchetas; desdenham de esquemas táticos e jamais obedeceriam a um “fecha o espaço” ou “volta pra marcar”. Um gato no banco de reservas pediria demissão no intervalo, alegando incompatibilidade filosófica com o 4-4-2.

E como explicar à torcida que o mascote oficial simplesmente não apareceu porque “não estava com vontade hoje”? No futebol, as vezes falta tudo, mas sobra cobrança. Gato não lida bem com cobrança. Quando pressionado, ele não responde: derruba um copo de água; encara o vazio e sai andando.

Por isso, no futebol prefere-se animais que rugem, bicam, ciscam ou voam em bando. O gato é solitário demais para um futebol que se diz coletivo e vaidoso para um esporte que exige desculpas públicas. O gato não dá entrevista, no máximo, olha para o microfone com desprezo.

No fundo, a ausência do gato como mascote revela uma verdade incômoda: o futebol brasileiro não está preparado para a elegância indiferente da vitória sem explicação e da derrota sem drama. Quando estiver, talvez um gato apareça no escudo. Mas não conte com ele para entrar em campo. Ele estará dormindo.

Né não?

Afonso Canabrava

Afonso Canabrava nasceu na Rua São Paulo há 5 quadras do campo do Galo, aonde foi criado e aprendeu a nadar, jogar futebol e outras avenças. Foi contemporâneo dos comentários “lesco-lesco” do Kafunga, da presidência de Nelson Campos e de jogadores como Ubaldo, Dario, Reinaldo e tantos outros. Nessa época comemorou o pentacampeonato Mineiro e do Brasileirão. Torcedor contra o vento diante de uma camisa do Galo dependurada no varal, é ferrenho crítico de futebol e todas as suas nuances.

Instagram: @afonsocanabrava

As opiniões contidas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do portal Balcão News.

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