O risco é trocar segurança energética por dependência tecnológica e de manufatura
A transição energética brasileira tornou-se uma discussão sobre dependência tecnológica e industrial. Ao ampliar eletrificação, geração solar e armazenamento, o país aumenta a dependência de veículos, baterias, painéis solares, turbinas eólicas e tecnologias chinesas.
Descarbonizar é necessário, mas a discussão não pode se limitar às emissões. É preciso avaliar onde os produtos serão produzidos, quem dominará o conhecimento, quanto do valor agregado ficará no Brasil e os efeitos sobre a indústria nacional.
O risco é trocar segurança energética por dependência tecnológica e de manufatura. Não basta montar veículos no Brasil se baterias e componentes estratégicos vierem do exterior. A China domina cadeias de minerais críticos: recebe insumos, processa e devolve produtos prontos, de maior valor agregado. A fabricação não ocorre no país.
Não faz sentido importar produtos da manufatura chinesa quando já temos, no Brasil, recursos, conhecimento e capacidade produtiva para construir parte relevante dessa transição com soluções próprias.
O mesmo vale para a energia solar. A geração distribuída exige flexibilidade e armazenamento. Se a resposta for importar baterias, ganhamos autonomia na geração, mas criamos dependência tecnológica no sistema elétrico quando temos outras fontes alternativas e renováveis.
Esse paradoxo reforça a necessidade de partir do que o Brasil domina. A bioenergia deve ocupar posição central. Temos cadeias maduras de etanol, biodiesel, biometano e bioeletricidade. O carro híbrido flex chinês reforça esse potencial, mas provoca uma pergunta: essa combinação entre eletrificação e etanol não deveria ter sido o ponto de partida, já que o setor de etanol brasileiro possui conhecimento, infraestrutura e capacidade produtiva?
A transição deve incorporar novas tecnologias sem abandonar competências próprias, combinando indústria nacional, agronegócio, inovações e biocombustíveis para reduzir emissões com autonomia energética e tecnológica.
Mário Campos
- Presidente da Siamig Bioenergia e Bioenergia Brasil
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