Galo: Temporada 2026
O Atlético resolveu mostrar que ainda sabe assustar adversário sem precisar mandar carta registrada. Na noite de quarta-feira, 14 de outubro, diante de 38 mil torcedores na Arena MRV, despachou o Montevideo City Torque por 3 a 0, pela semifinal da Copa Sul-Americana. Reinier, Bernard e Thiago Borbas assinaram os gols de uma vitória que deixou o Galo com um pé na decisão continental. O outro pé, naturalmente, precisa entrar em campo no Uruguai, porque futebol não se ganha com salto alto nem com procissão antes do apito final.
O que mais agradou não foi apenas o placar: foi a autoridade. O Atlético tomou a iniciativa, procurou o gol, criou oportunidades e, depois de destravar a partida, soube controlar o adversário. A defesa trabalhou com segurança, o meio-campo ofereceu sustentação e o ataque resolveu a parada. Segundo a análise do ge.com, foi uma atuação dominante, com o setor ofensivo em noite inspirada. Traduzindo para o português das arquibancadas: desta vez, o Galo não ficou ciscando na frente da área enquanto o relógio fazia hora extra.
E houve protagonistas de sobra. Cuello foi um dos grandes nomes da noite: driblador, veloz, atrevido e capaz de desmontar uma marcação com uma arrancada. Foi dele a jogada que abriu caminho para o primeiro gol. Reinier, inteligente na movimentação e eficiente na conclusão, chegou a dez gols na temporada. Bernard, habilidoso, agudo e dono de boa capacidade de infiltração, também alcançou dez gols em 2026 e marcou um golaço. Thiago Borbas, por sua vez, apareceu para transformar uma vitória importante numa vantagem ainda mais confortável. Quando o ataque funciona assim, até o goleiro adversário começa a desconfiar da profissão que escolheu.
Mas seria injustiça entregar a medalha inteira aos homens da frente. Renan Lodi deu intensidade ao corredor esquerdo, apoiando o ataque e recompondo quando necessário. Alan Franco ajudou a organizar a circulação da bola, enquanto Lyanco mostrou firmeza nos cortes e nas interceptações. E Gabriel Delfim, quando exigido, respondeu com segurança, inclusive numa defesa de grande dificuldade. É assim que se constrói um time: cada um cumprindo sua função, sem transformar a partida num concurso de vaidades em que todo mundo quer ser o dono da bola e ninguém quer ser dono da responsabilidade.
A evolução atleticana não nasceu ontem, embora ontem tenha servido um belo atestado de progresso. O time de Eduardo Domínguez chegou a sete partidas de invencibilidade em 2026, segundo o clube, e vem demonstrando maior capacidade de reagir, competir e sustentar resultados. No Brasileirão, o empate por 2 a 2 com o Athletico-PR, depois de uma partida disputada até o fim, foi interpretado pelo ge como sinal de persistência na luta para se aproximar do grupo de classificação à Libertadores. A diferença é importante: o Galo está aprendendo que campeonato não se disputa apenas quando há taça à vista; ponto perdido em outubro também faz falta em dezembro.
E quais são as perspectivas? Na Copa Sul-Americana, a situação é promissora: com os 3 a 0 sobre o City Torque, o Atlético pode perder por até dois gols na volta, em Montevidéu, e ainda avançar à final. É uma vantagem respeitável, mas não uma autorização para viajar de chinelo e voltar de mãos abanando.
Na Copa do Brasil, a possibilidade de título permanece viva, mas a semifinal exige concentração e equilíbrio; a qualidade do elenco não dispensa futebol bem jogado. Já no Brasileirão, a aproximação do G-5 mantém aberta a perspectiva de uma vaga na Libertadores. A mídia vê um Atlético competitivo nas três frentes, mas a palavra decisiva continua sendo regularidade: quem deseja levantar três troféus precisa evitar que a ambição vire uma coleção de tropeços.
O melhor sinal, portanto, é que o Galo começa a combinar talento individual com comportamento coletivo. Cuello desequilibra, Reinier finaliza, Bernard inventa, Borbas aproveita, o meio-campo trabalha e a defesa procura não oferecer presentes de aniversário ao adversário. Ainda há desafios, especialmente na manutenção desse padrão fora de casa e na administração do desgaste de uma temporada exigente. Mas já se vê um time que não entra em campo apenas para cumprir tabela: entra para disputar o resultado.
E aqui vai a velha conclusão que qualquer torcedor entende, até aquele que confunde impedimento com falta de educação: o Atlético voltou a ter cara de candidato, não apenas de participante. A Sul-Americana está ao alcance, a Copa do Brasil oferece outra estrada para a glória e o Brasileirão continua sendo uma batalha de resistência. Agora, é preciso transformar entusiasmo em competência e competência em taça.
Porque, como diria um cronista de arquibancada sem papas na língua, camisa pesada ajuda, torcida empurra e discurso bonito enfeita entrevista. Mas quem ganha jogo é jogador que corre, treinador que enxerga e time que não amarela quando o adversário rosna.
Galo, siga em frente! O terreiro está animado, a torcida voltou a acreditar e o adversário já não pode dormir sossegado. Só não vale cantar vitória antes da hora: no futebol, até o galo mais valente precisa terminar o serviço antes de anunciar o amanhecer.
Né não?
Afonso Canabrava
- Instagram: @afonsocanabrava
Afonso Canabrava nasceu na Rua São Paulo há 5 quadras do campo do Galo, aonde foi criado e aprendeu a nadar, jogar futebol e outras avenças. Foi contemporâneo dos comentários “lesco-lesco” do Kafunga, da presidência de Nelson Campos e de jogadores como Ubaldo, Dario, Reinaldo e tantos outros. Nessa época comemorou o pentacampeonato Mineiro e do Brasileirão. Torcedor contra o vento diante de uma camisa do Galo dependurada no varal, é ferrenho crítico de futebol e todas as suas nuances.
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