Os estilos dos Vinhos da Dupla Poda

Os estilos dos vinhos colheita de inverno Os estilos dos vinhos colheita de inverno
Foto: Arquivo pessoal.

Os estilos dos Vinhos da Dupla Poda

Em um quadro de normalidade, uma região vinícola, seja ela onde for, demora algumas dezenas de anos ou séculos para mostrar seu grande potencial e tornar-se uma referência mundial, como as regiões francesas de Bordeaux com seus vinhos seguindo o estilo de blends de Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc e pitadas de Petit Verdot.

A Borgonha, referência mundial, com seus brancos de Chardonnay em estilo barricado e os varietais de Pinot Noir em estilo leves, com cor vermelha de baixa intensidade, elegantes e complexos, remetendo a notas terrosas (cogumelos, “sous-bois”, trufas), após muitos anos de envelhecimento em garrafas, em um estilo próprio e inimitável.

No Piemonte, os famosos Barolos, “Rei dos Vinhos ou Vinhos do Rei”, se apresentam em estilo potentes, tânicos e com acidez marcante e longevos, com características das uvas Nebbiolo que aportam aromas de rosas e alcatrão. Um estilo único não repetido em outras regiões ao redor do mundo.

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Na bela Toscana, os Chiantis apresentam estilo frutado, leve, com uma acidez marcante.

No Douro, os portugueses apostam no estilo de blend, com as suas castas autóctones (nativas).

Em Cahors, França, origem da Malbec, gera vinhos em estilo mais rústicos e tânicos do que os famosos Mabecs da Argentina, onde ela se apresenta em um estilo frutado, mais amável, com taninos aveludados, mais macios.

A Carménère, de origem francesa de Bordeaux apresenta um estilo clássico e estruturado, nesta região, pouco produzido em varietais, devido as dificuldades de um amadurecimento ideal, podendo entrar no corte bordalês, diferente dos varietais chilenos que apresentam um estilo típico, com notas herbáceas de páprica, com taninos aveludados, de corpo médio e com um frescor agradável.

A casta Merlot, encontrou, no Brasil, seu berço, no Vale dos Vinhedos onde apresenta varietais frutados, de corpo médio, enquanto que o estilo francês (especialmente da margem direita de Bordeaux) é mais estruturado, com notas mais terrosas.
Inúmeros estilos de vinhos pipocam pelo mundo. Interessante é ter uma visão global: Vinhos do Velho Mundo x Vinhos do Novo Mundo.

Mas, algo diferente, está surgindo no Brasil.

E, a pergunta que sempre faço ao meu palato: Qual é o estilo dos Vinhos de Inverno, gerados a partir da aplicação nos vinhedos da técnica da Dupla Poda, que modifica o ciclo da videira para que as uvas amadureçam e sejam colhidas no inverno.

O estilo do vinho Syrah na Dupla Poda

Em todos os países produtores de vinhos existem regiões com vinhos mais marcantes que a identificam com mais propriedade, mas podendo surgir estilos de vinhos diferentes, com a mesma casta dependendo de um micro- terroir, criando estilos com variações regionais.

Nestas duas últimas décadas, está ocorrendo, em vários países, forte crescimento da área cultivada com a amável e interessante casta Syrah, que de modo geral apresentam vinhos om elevada intensidade de cor, mas com vários estilos mundialmente falando.

Por sorte, ela foi a casta tinta que melhor se adaptou a prática da Dupla Poda, tornando-se a tinta emblemática dos estados do Sudeste e Centro-oeste do Brasil.

Durante minhas viagens pelos caminhos da Dupla Poda, nos estados do Sudeste e Centro-oeste, degustei cerca de 500 Vinhos de Inverno e uma pergunta que me inquieta até hoje é: Qual é o estilo principal ou padrão do vinho Syrah, colheita de inverno?

A colheita de inverno veio para quebrar paradigmas e acredito que passa por um novo estilo de vinho Syrah, diferente das principais regiões que cultivam esta casta. Acredito, sem ter certeza, pois a vitivinicultura com a Dupla Poda é muito novinha.

O destaque da Syrah no contexto mundial e o estilo a ser copiado e imitado se encontra no Norte do Rhône, especialmente em Côte-Rôtie e Hermitage, onde se apresentam com cor profunda e intensa, negra. Estruturados, potentes com notas marcantes de pimenta-preta, toques animais ou defumados e taninos firmes, com longa capacidade de guarda. Um clássico. Alguns Vinhos de Inverno Syrah lembram estas duas importantes denominações.

Fora do Rhône, França, a Syrah encontrou seu berço na Austrália, em estilo diferente: mais frutado, mais doce, mais encorpado, com alto teor alcoólico e notas intensas de frutas maduras (ameixa, amora, mirtilo), pimenta preta, chocolate e especiarias, especialmente em regiões quentes como Barossa Valley, enquanto em climas mais frescos (Hunter Valley) pode ter um perfil mais terroso e de pimenta, mais fresco.

De maneira geral, os Syrah da terra dos cangurus são mais potentes do que o do Rhône, contribuindo para a sensação de grande volume de corpo, devido ao clima extremamente quente, podendo faltar um pouco de acidez, diferentemente do elegante Syrah francês e dos Syrah Colheita de Inverno.

Seguindo o clima quente da Austrália, o Alentejo também apresenta vinhos potentes e fruta madura, diferentes dos Syrah de clima frio. E, os Syrah Colheita de Inverno são de clima frio, apesar de estarmos no Brasil Tropical, quente por natureza, que beleza.

Interessante destacar que a Syrah se adapta tanto em climas quentes como em climas frios, gerando estilos completamente diferentes.

Por exemplo: os vinhos Syrah sul-africanos, geralmente, apresentam um estilo que mescla a elegância europeia com a intensidade frutada do Novo Mundo, com um frescor agradável, devido a corrente de Benguela, as influências marítimas da proximidade da costa com dois oceanos: o Índico e o Atlântico, refrescado pelo forte e seco vento “Cape Doctor” que penetra no sudoeste da África, na área da Cidade do Cabo e Península do Cabo, amenizando o calor e aportando uma acidez marcante, mesmo no árido solo africano. Pensando somente no item acidez marcante poderíamos pensar em algo semelhante aos Syrah de Inverno. Mas os Vinhos de Inverno tem elevado teor alcoólico, não muito comum nos vinhos sul-africanos.

Já, em Casablanca, no Chile, o clima frio e costeiro conduz a um amadurecimento mais lento da uva Syrah, apresentando um estilo mais frutado, preservando notas mais florais e picantes, em vez do perfil mais pesado e concentrado de regiões quentes, sendo mais sutis e complexos e com frescor e finesse, em contraste com os Syrahs de regiões quentes. Alguns rótulos Syrah de Inverno lembram alguns rótulos desta bela região chilena.

Uma conclusão com relação a este tema não é fácil. É complexa…

Primeira diga para tentar compreende-los: desparafuse sua cabeça e não pense em colheita de verão. Não pense em Syrah de clima quente. Pense mais em clima frio. Mas, a colheita de inverno tem suas peculiaridades…

A dificuldade maior de definir com propriedade o que considero um novo estilo internacional de Syrah, passa pela longa extensão (7 estados do Sudeste e Centro-oeste do Brasil) onde a Dupla Poda foi aplicada para amadurecer as uvas durante o inverno, fato inédito, no mundo.

Passa também por outros fatores: diferentes solos e diferentes inclinações de vinhedos, mas o que talvez tenha maior influência é a amplitude térmica elevada de 20 graus, entre dia e noite, dias com alta luminosidade, sem nuvens – céu de brigadeiro, clima seco, zero de chuvas, que exerce stress hídrico para a videira e proporciona um ciclo de madureza longo, que permite obter uvas com alto teor de açúcar, elevado potencial enológico, sem a perda acentuada de acidez e vinhos com elevado teor alcoólico, entre 14 a 16 graus. Apesar do elevado patamar de álcool, eles se apresentam equilibrados e gastronômicos. São potentes e elegantes ao mesmo tempo, algo meio antagônico, mas altamente explicado por estas condições climáticas, apoiado pela elevada altitude dos vinhedos, entre 800 a 1.400 metros.

Apesar de eu ter degustado cerca de 500 Vinhos de Inverno dos 7 estados do Sudeste e Centro-oeste e de uma vitivinicultura muito nova, que atingiu somente 24 anos de idade e com muitos vinhedos jovens, em sua maioria, seria muita pretensão, minha bater o martelo e definir um estilo para os Vinhos Syrah Colheita de inverno. Mas, eu gosto de desafios…

Em um exercício de futurologia, tenho uma visão inicial que gostaria de compartilhar entre os proprietários da vinícolas, enólogos, professores de vinhos, degustadores profissionais e consumidores. É um debate interessante. É um início. É um novo desafio para os degustadores… É segue o dito popular: “um tema que tem muito pano pra manga”.

Para responder esta questão, com mais propriedade, com mais segurança, coloquei meu motorhome, novamente na estrada, após a realização de meu sonho de dar uma volta ao mundo do vinho, uma viagem de 2 anos e 3 meses, degustando milhares de vinhos dos 24 principais países produtores de vinhos do mundo, dos 4 continentes, que me possibilitou ter uma visão global dos tipos e estilos de vinhos ao redor do planeta.

Ao retornar ao Brasil, a partir de 2016/2017, meu motorhome começou a visitar os primeiros vinhedos, em Cordislândia, Três Pontas, Andradas, Jacutinga, São Gonçalo do Sapucaí, no Sul de Minas. Do outro lado da fronteira: Espírito Santo do Pinhal, em São Paulo.

Visitei mais de 100 novos projetos no Sul de Minas, Triângulo Mineiro, Campo das Vertentes, Sudoeste de Minas, Circuito das Águas, Zona da Mata e Quadrilátero Ferrífero, em Minas.

Ultrapassei a fronteira, e pulei para o lado de São Paulo, ao redor das cidades de Espírito Santo do Pinhal (principal polo da Dupla Poda) e Santo Antônio do Jardim, Itobi, São Sebastião da Grama e Águas da Prata. Vinhos que seguem o padrão da Dupla Poda, mas com pequenas diferenças do Sul de Minas, “benchmark” dos vinhos Colheita de Inverno.

Os estilos ou pequenos detalhes ou perfil, também se alteram passando pelas regiões da Alta Mogiana, entre as cidades satélites de Ribeirão Preto, Cravinhos e Franca, Campinas, Amparo, Indaiatuba. Fui mais longe: Bofete, Itu, Itaí e cheguei na região em torno de Campos do Jordão, especificamente, no Vale do Baú.

Passei por São Roque e Jundiaí, tradicionais produtores de Vinhos de Mesa, a partir de Vitis Labrusca, que passaram a adotar, também, a Dupla Poda e estão começando a fazer reconversão de seus vinhedos apresentando estilos próprios e de estilos completamente diferentes do seu berço, o Sul de Minas.

Voltei a Minas e atravessei a “Serra que Chora” – Mantikir – no circuito das Águas Minerais e atravessei os vinhedos do lago de Furnas. Algo diferente entre si. Senti que seus vinhos seguem um perfil um pouco diferente entre si.
Minha gana de entender os vários estilos que estão se apresentando desta vitivinicultura jovem me conduziu a levar meu motorhome para Goiás, degustando excelentes vinhos em torno das cidades de Pirenópolis, Cocalzinho de Goiás e Rianápolis. Até Brasília, adotou a dupla poda, com mais de dez vinhedos, onde percebi Syrahs diferentes entre si. Apesar de vizinhos próximos, os vinhos do DF são diferentes dos de Goiás.

Atravessei os vinhedos implantados em elevada altitude (entre 700 a 1.400 metros) de toda a Serra da Mantiqueira, chegando no lado do Rio de Janeiro, próximo a cidade de Areal, capital do vinho deste estado. Vinícolas e vinhos vibrantes estão surgindo, nas proximidades de Teresópolis, Nova Friburgo, Petrópolis e Paty do Alferes, cada qual com seu estilo.
A cada degustação, em cada região, em cada estado, fechava meus olhos e tentava ver alguma semelhança dos vinhos de inverno com os vinhos das mais importantes regiões vinícolas do mundo.

Esta pergunta me perseguia. Mas, não tinha uma resposta firme para definir com propriedade o estilo principal dos vinhos de inverno? Tudo muito novo, atingindo sua maioridade, agora. Baronesa Philippine de Rothschild afirmou: “É necessário centenas de anos para se fazer vinhos de alta qualidade”. Mas, os vinhos que estão surgindo com a prática da Dupla Poda quebraram esta frase antológica da Baronesa.
Um outro fator que ajudou a confundir meu palato para definir o estilo ou estilos dos Vinhos de Inverno foi a rápida e vertiginosa expansão dos vinhedos pelos 7 estados do Sudeste e Centro-oeste. Uma loucura, são cerca de 2,5 milhões de Km2, com uma grande variação de “terroirs”. Variação de solo, altitudes e diferentes condições climáticas. Além, esta área apresenta vinhedos em serras, chapadas e planaltos, que certamente geram vinhos diferentes entre si.

A elevada qualidade de um vinho, em qualquer região vinícola do mundo passa pelo “terroir”, pelas condições climáticas, pela composição física e química dos solos, pelo índice pluviométrico, horas de sol, índice de luminosidade, amplitude térmica, principalmente no período de colheita. São inúmeros fatores humanos e geográficos, até mesmo a altitude e a inclinação do vinhedo, que geram estilos de vinhos e de patamares de qualidade diferentes, desde aos excepcionais, excelentes, muito bons, bons e razoáveis. Assim, é o mundo do vinho.

Foram mais de 500 Vinhos de Inverno degustados e sempre buscando a resposta: qual é o estilo principal?

Cheguei a uma conclusão partindo da seguinte premissa: a área é gigantesca, mas o clima no inverno é parecido. Talvez, as demais influências de variação da composição química e física dos solos seriam tema de uma análise posterior, quando tivermos uma vitivinicultura entre 30 a 50 anos, mas acredito que os fatores climáticos de amadurecer no inverno são mais marcantes (exercem mais influência) do que as variações do tipo de cada solo de cada estado e de suas respectivas regiões.
Mas, uma coisa é certa, como diz o popular ditado: “O bom vinho começa no vinhedo”. De nada adianta tecnologia avançada em equipamentos de vinificação ou ter o melhor enólogo do mundo se ele não recebe uvas de qualidade. E, nestes 7 estados é surpreendente o alto potencial enológico das uvas colhidas no inverno.

As uvas tintas colhidas no inverno geram vinhos com um estilo bem definido, em sua maioria: tonalidade escura, quase negro, encorpados e de sabor impactante com taninos macios e elegantes, elevado teor alcoólico, entre 14 a 16 graus, mas suportado pela acidez preservada durante o amadurecimento lento das uvas, durante o inverno e pela altitude dos vinhedos, acima de 800 metros e da elevada amplitude térmica em torno de 20 graus (dias com 28 e noites frias de 8 a 10 graus), que aportam frescor ao conjunto.

Este é o padrão básico dos Vinhos de Inverno, pouco comum, no mundo. Potentes e elegantes, algo antagônico.

Mas, a pergunta e minha inquietação continua: Qual é a região do mundo que produz vinho Syrah, próximo ao estilo dos Vinhos de Inverno do Sudeste e Centro-oeste do Brasil?

Talvez, o primeiro caminho é ser incisivo e bater logo o martelo: “Não tem nada a haver com os Syrah de região ou país de clima quente, eliminando os estilos da Austrália e Alentejo.

Em termos de elegância fico com uma certa semelhança aos Syrah do Rhône, mas com algo diferente: os Syrah de Inverno apresentam taninos e antocianos com alta extratibilidade dos compostos fenólicos, devido a sua excepcional madureza durante o inverno, gerando vinhos mastigáveis e elegantes, suportado por uma acidez marcante.

Talvez poderíamos pensar em comparar os vinhos de inverno aos da África do Sul se pensarmos somente no elemento:

preservação da acidez, mas não chegam ao estilo dos Vinhos de Inverno que apresentam elevado teor alcoólico e excepcional madureza fenólica.

Acredito que os Vinhos Syrah de Inverno chegam perto do estilo do estado de Washington, nos Estados Unidos, conhecidos por serem intensos, encorpados e frutados, com um perfil que mistura o caráter do Novo Mundo (frutas maduras) com especiarias (pimenta preta), mas também podem ter toques defumados e notas minerais, variando do frutado ao mais estruturado, dependendo da área cultivada. São dois estilos em Washington que dificulta a comparação com os vinhos colheita de inverno.

Dito isto, vou seu ousado: “Não existe estilo de Syrah, semelhante ao elaborados com a técnica da Dupla Poda”, principalmente se levarmos em conta o elevado teor alcoólico de seus vinhos e o equilíbrio entre os outros elementos: acidez preservada, taninos maduros e com elevada tonalidade de cor, quase negra.

Desejando conhecer, com profundidade este tema, segue o link do meu e-book: “Minhas Aventuras pela Dupla Poda”:

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Professor Horácio Barros

Professor Horácio Barros é engenheiro siderúrgico, especialista em vinhos e fundador da Escola Itinerante de Vinhos. Referência nacional em Vinhos de Inverno e na técnica da Dupla Poda, é autor do e-book Minhas Aventuras pela Dupla Poda e colunista do Balcão News.

Conheça mais o trabalho do professor Horácio acessando:

Leia também os outros artigos publicados semanalmente:

Artigo 01: Como conheci a Dupla Poda

Artigo 02: O que é Dupla Poda

Artigo 03: Como alterar o ciclo da videira para colher no inverno

Artigo 04: As uvas da Dupla Poda

Artigo 05: Principais vantagens da Colheita de Inverno

Artigo 06: A Expansão da Dupla Poda – Os primeiros vinhedos

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