Uso de celular em sala de aula divide opiniões na CMBH

Uso celular em sala de aula 29 11 24 Balcao News Uso celular em sala de aula 29 11 24 Balcao News
Projeto da Câmara Federal proibe uso do aparelho em qualquer situação dentro da escola, mesmo no recreio. Foto: CMBH.

Representantes de sindicatos de trabalhadores da educação recomendaram que tenha mais debate sobre o uso do celular em sala de aula nas escolas da capital.

Na reunião de ontem, da Comissão de Educação, Ciência, Tecnologia, Cultura, Desporto, Lazer e Turismoda Câmara Municipal de BH, eles ressaltaram que, diante da realidade de violência, bullying, depressão e ansiedade, agravada pela falta de infraestrutura e conectividade, muitos docentes estariam concordando com a legislação proposta em projeto de lei que tramita na Câmara .

A Comissão de Educação da Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei que proíbe o uso de telefone celular e de outros aparelhos eletrônicos portáteis por alunos da educação básica em escolas públicas e particulares, inclusive no recreio e nos intervalos entre as aulas.

Além de proibir o uso, o texto proíbe também o porte de celular por alunos da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental, como forma de proteger a criança de até 10 anos de idade de possíveis abusos.

Publicidade

A proposta, segundo a Agência Câmara de Notícias, autoriza, por outro lado, o uso de celular em sala de aula para fins estritamente pedagógicos, em todos os anos da educação básica. Permite ainda o uso para fins de acessibilidade, inclusão e condições médicas.

Representando a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Maria do Carmo Melo ressaltou que há prós e contras no uso dos celulares nas escolas. A especialista apontou os riscos do uso excessivo de dispositivos eletrônicos por crianças e adolescentes, destacando as questões ligadas à saúde mental, obesidade, prática de bullying e exclusão digital, como pontos negativos, mas considerou a importância da formação digital dos estudantes, uma vez que várias escolas adotam plataformas digitais de ensino.

Ela lembrou que a SBP orienta limites claros para o tempo de exposição à tela. “Antes dos 2 anos, o uso deve ser inexistente. De 2 a 5 anos, até duas horas por dia; acima de 5 anos, no máximo três horas. Queremos que as crianças manuseiem tecnologia, mas é preciso proteger a infância para formar adultos saudáveis”, ponderou.

Já Maria Cristina Silva, da Faculdade de Educação da UFMG, relacionou o debate à saúde mental das crianças e adolescentes. “A infância mediada pelo celular traz desafios como a perda da corporeidade e o sofrimento causado por padrões sociais impostos pelas redes. Proibir ou não é importante, mas precisamos oferecer alternativas, como espaços para brincar e maior contato com a natureza”, observou a professora.

Os impactos pedagógicos da questão foram destacados por Larissa Santos Ciríaco, da Faculdade de Letras da UFMG, que mencionou movimentos nacionais e internacionais contra o uso indiscriminado de telas. A professora lembrou que no Rio de Janeiro já existe uma lei em vigor, que vem apresentando bons resultados. Além disso, destacou a pobreza linguística decorrente do uso excessivo desses dispositivos, o que vem comprometendo a capacidade de compreensão e produção textual das crianças e dos adolescentes.

Por outro lado, Guilherme Carvalho Franco, do Centro Pedagógico, defendeu a educação digital em lugar da proibição. O educador, que trabalha com jovens entre 12 e 15 anos, acredita que o celular na escola é uma oportunidade para o ensino de habilidades como o uso responsável e moderado das telas, processo que muitos pais não têm tempo para desenvolver em casa com seus filhos. Ele concordou que há uma relação entre sofrimento mental e uso excessivo do celular, mas disse que não há literatura que comprove relação de causa e efeito. “Proibir celulares prejudica a autonomia dos professores e o desenvolvimento dos estudantes. Precisamos educar para os riscos e usar a tecnologia como ferramenta pedagógica”, defendeu.

Sind-UTE

Marcelle Amador, do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE), apresentou dados que indicam apoio à proibição. Segundo a representante da entidade, em pesquisa realizada em 660 cidades mineiras, 94% dos professores relataram problemas com o uso inadequado de celulares e 63% se colocaram totalmente contra os dispositivos no ambiente escolar, inclusive no horário do recreio. “Para muitos, a proibição seria uma solução frente à precariedade estrutural e à falta de inclusão digital nas escolas”, ressaltou.

Já Diana de Cássia Silva, do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação da Rede Pública Municipal (Sind-Rede/BH), alertou para os episódios de violência, racismo e bullying associados ao uso de celulares nas escolas e defendeu a necessidade de uma formação adequada dos professores para trabalhar o letramento digital dos estudantes. A professora afirmou que a construção de um texto que regule essa questão precisa incluir as contribuições dos trabalhadores, e solicitou a realização de um seminário sobre o tema antes da apresentação de um projeto de lei.

Participando também da audiência, o Secretário Municipal de Educação, Bruno Barral, disse que a proibição não deve ser o caminho trilhado nesta construção e reconheceu que é necessário avançar no rumo da educação para uso responsável dos dispositivos, respeitando a autonomia dos docentes e os arranjos locais da comunidade.

Próximos passos

Os representantes concluíram que é necessário políticas públicas adaptadas às diferentes realidades. Dr. Bruno Pedralva destacou a importância de construir uma proposta local, com foco na regulamentação do uso responsável dos dispositivos, e se comprometeu a promover um seminário sobre o tema na Casa. “Esperamos, a partir de janeiro de 2025, ter uma lei construída em conjunto, envolvendo os vereadores, as entidades e a Secretaria Municipal de Educação”, finalizou.

Leia mais:

Prefeito Fuad Noman tem alta de hospital

Mantenha-se atualizado com as notícias mais importantes

Ao pressionar o botão Inscrever-se, você confirma que leu e concorda com nossos Termos de Uso e as nossas Políticas de Privacidade
Share this