O Brasil começa a dar os primeiros passos para desenvolver seu próprio sistema de navegação por satélite, um avanço tecnológico que colocaria o país entre as nações com maior autonomia estratégica no setor aeroespacial.
Um grupo técnico, formado por representantes do governo, das Forças Armadas, da indústria e de instituições científicas, foi criado para avaliar a viabilidade e o impacto dessa iniciativa ambiciosa.
A proposta é analisar riscos, gargalos, custos e possíveis benefícios de um projeto que exigiria investimentos robustos e elevada capacidade tecnológica. Atualmente, o país depende integralmente de sistemas estrangeiros, como o GPS, controlado pelos Estados Unidos, o que levanta preocupações sobre soberania digital e segurança nacional.
Grupo terá 180 dias para concluir estudo
Instituído no início de julho, por meio da Resolução nº 33 do Comitê de Desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro, o grupo terá até janeiro de 2026 para apresentar um relatório conclusivo ao Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República.
A resolução foi assinada pelo ministro do GSI, Marcos Antonio Amaro dos Santos.
Rodrigo Leonardi, diretor da Agência Espacial Brasileira (AEB), explica que o objetivo é analisar se o Brasil deve investir em um sistema regional ou global, considerando aspectos técnicos, econômicos e geopolíticos. “O investimento seria muito superior ao que temos hoje no programa espacial, mas é um debate estratégico e necessário”, frisou.
Criação do grupo é anterior a anúncio de Trump
A formação do grupo antecede o anúncio feito por Donald Trump, de que os produtos brasileiros pagarão 50% de tarifa para entrar nos EUA a partir de agosto. Também veio antes da recente onda de especulações nas redes sociais sobre a possibilidade de os americanos restringirem o acesso do Brasil ao GPS, em um cenário de conflito comercial.
Leonardi classifica essa suposição como ruído infundado. “Nunca houve qualquer sinal oficial nesse sentido. E mesmo que houvesse, o GPS não é o único sistema disponível. O Brasil tem acesso a outros sistemas globais, como o Glonass (Rússia), o Galileo (União Europeia) e o BeiDou (China)”, afirmou.
GNSS é o nome correto, e não só GPS
Termo abrange todos os sistemas globais
A maioria das pessoas confunde o termo GPS, que é apenas o sistema americano, com GNSS (Global Navigation Satellite System), que engloba todos os sistemas de navegação e posicionamento.
Hoje, aparelhos celulares, carros, aeronaves e até mesmo máquinas agrícolas utilizam sinais multiconstelação, recebidos simultaneamente de várias fontes.
Segundo o professor Geovany Borges, da Universidade de Brasília (UnB), sistemas modernos já são projetados para captar diferentes constelações, garantindo redundância e precisão mesmo que um deles falhe. “Mesmo que o GPS fosse desligado, o impacto seria limitado, pois temos alternativas ativas e confiáveis”, explica.
Riscos são técnicos, não apenas políticos
A decisão de criar ou não um sistema próprio passa por diversos fatores. Um dos principais desafios, segundo Borges, é financeiro e logístico. “O Brasil tem recursos humanos qualificados. O problema é garantir financiamento constante, escala industrial e infraestrutura nacional de microeletrônica”, alerta.
Além disso, certos componentes essenciais podem enfrentar restrições comerciais internacionais, o que exige o fortalecimento de uma cadeia nacional de suprimentos tecnológicos.
O domínio sobre tecnologias de posicionamento, navegação e tempo (PNT) é considerado estratégico para a defesa e o desenvolvimento. “Não se trata apenas de segurança nacional. O impacto se estende à indústria, à agricultura, à medicina e à ciência”, afirma Borges.
Ele defende que o debate vá além do grupo técnico. “É preciso transformar o tema em uma política de Estado, com continuidade entre governos, investimentos em educação básica e valorização da ciência nacional”, finaliza.
País deve decidir entre sistema regional ou global
Uma das decisões centrais será optar por um sistema regional, cobrindo apenas o território brasileiro e áreas próximas, ou um sistema global, com constelação completa de satélites. A primeira opção é menos custosa, mas com alcance limitado. A segunda, mais ambiciosa, colocaria o Brasil em outro patamar de independência tecnológica.
Independentemente do modelo, especialistas concordam: o debate é urgente, e o momento é oportuno para planejar o futuro.


