Na proximidade de outro Natal, dar presentes caros não traz totalmente felicidade nem para quem recebe nem para quem o adquire
Com um mercado atingindo níveis de inadimplência estonteantes devido não tanto ao alto preço cobrado para se obter bens materiais, mas ao pouco dinheiro que o brasileiro possui em média como poder de compra, o Natal deste ano promete ser mais “Ai, ai, ai” do que “Ho ho ho”!
Mas brincadeiras à parte, e deixando de lado os elevados aspectos espirituais estimulantes da data, um fato evidente é que não tem graça alguma chegar ao fim de outro ano mais pobre do que se começou esta longa jornada habitual iniciada em janeiro.

Não há promessa que resista ao movimento caótico de uma vida social que constranja a individualidade do ser humano dito normal. E ser crítico exige menos coração e mais juízo por parte dos que se consideram razoáveis no trato e nos costumes.
E mais ainda, não há bolso que deixe de surgir furado ao se cogitar no que se deve comprar para si mesmo ou para outrem se a pessoa vestindo esta calça hipotética não esteja em um bom dia para gastar no crédito ou no débito.
Mas por quais motivos presentear se torna tão importante para o Natal?
Esta é uma questão cara para um coração quente que aprecie a felicidade de outros que não somente a si mesmo.

É verdade que as lojas precisam fazer da oportunidade uma ferramenta que gere lucro. As Black Fridays, por oportuno exemplo, parece que surgem a cada novo bimestre ou data comemorativa (o que era tão somente em novembro, nos Estados Unidos) para justamente alavancar vendas, supostamente favorecendo aos compradores o que eles anseiam o ano inteiro: Desconto e oferta (e vice-versa).
Comprar sem que para isto precise tirar o pão que alimenta o filho em casa – ou mais genericamente, fazer bom uso do seu dinheiro para com esta ação não perder o sono gerando dívidas perigosas demais para se poder ignorar, que ameaçam e punem o devedor com o gládio da justiça penal.

As causas para uma suposta escassez econômica vão desde a não inserção no mercado de trabalho até a infame e inadequada má distribuição da renda, que fica por conta majoritariamente de um governo local e federal, sempre famintos por impostos, ordenar por meio de leis fazendo cumprir seu direito de tomar para si o que é na verdade próprio do indivíduo, dito cidadão.
Ainda que se conceda extraordinária importância, na realidade a maior parcela do dinheiro arrecadado fica reservada no Tesouro e circulando nas mãos dos inveterados corruptos que todos sabem atuantes, ladinos mesmo estes que nomes não mais dizem nada haja vista o sistêmico e estatizado roubo levado a efeito por esquemas e favores trocados.
Outra causa pode ser a ordinária qualificação profissional dos brasileiros adultos que, em média, não se especializam em quaisquer funções técnicas ou acadêmicas, assumindo que estão confortáveis apenas por estarem empregados fazendo algo que, brevemente, será mais barato para um empregador ou empresa destinar operacionalmente às Inteligências Artificiais (IAs) ou autômatos de alta performance fazerem em lugar dos humanos.
E se além de uma autêntica necessidade se faz compras, vender se torna vital, pois, sem que haja o produto não tem como sequer sonhar com a ideia de regozijar-se com aquele “algo”.
A experiência de saber o que o indeciso de fato deseja para muito além de seus preceitos simplistas torna o entrelaçamento das vontades um fenômeno real.
(Não à toa, considere o leitor ou a leitora o auspicioso trocadilho ligado ao nome do nosso dinheiro, que por pouco não perdia seu corpo a fim de se tornar um dígito controlado pelo governo do sistema.)

A energia chamada “Dinheiro” pode até não ser o mais essencial, menos que o “Amor” para alguns, mas se puder ser manipulada e orientada de modo competente, garante ao menos a paz de duas almas: Vendedor e Cliente.
Tudo é útil e descartável ao mesmo tempo em que cumpre com uma atribuição.
A imagem como produto. A arte como produto. A comida como produto e bem transformador, também. Roupas e calçados. Cama, mesa e banho. Tudo comprado não com sorrisos, mas com o dinheiro que se torna conceito abstrato.

No Natal, o único presente que não pode faltar é o próprio sujeito.
Para alguns – parentela de sangue, familiares, amigos ou colegas –, a falta de uma pessoa específica representa uma perda/prejuízo, enquanto que estar à sombra ou à luz desta mesma individualidade significaria em termos particulares ganhar o tempo com alegria, lucrar com o investimento vital atribuído ao afeto sincero.
Lucrar é fazer tudo certo e alimentar a alma com um pretenso sucesso, e nada mais aceitável que em nome de um bem comum todos lucrem ou tenham menos prejuízo possível.
Pois, neste Natal ao menos, este ser humano vivo tem que estar, nem que para apenas dormir sem expectativas de que na manhã seguinte existam pacotes adornados de embrulhos espalhafatosos sob o simulacro de pinheiro ou mensagens agradáveis informando o depósito Pix na conta.
Nada mais a acrescentar por agora, Paz e Luz neste Natal a todo o mundo.
Estes são ótimos presentes cuja pessoa mais rica deste mundo não teria poder de obter usando dinheiro como veículo de aquisição. (Assim é hoje, foi ontem, será amanhã…!)
Tiago Boson
- O colaborador Tiago Boson é multi-instrumentista autodidata, compositor, professor de música, pintor, ilustrador, escritor/poeta (não publicado).
E-mail: bosontiago@gmail.com
Instagram: @tiagoboson
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