Homem & Mulher: Afinal, existe mesmo um culpado?

Casal discutindo a relação – casal sentados em uma cama tristes.Casal discutindo a relação – casal sentados em uma cama tristes.
Homem & Mulher: Afinal, existe mesmo um culpado? Foto: Freepik/stefamerpik.

Homem & Mulher: Afinal, existe mesmo um culpado?

União estável é a única final de campeonato em que os dois entram em campo jurando que jamais abandonarão o gramado. Tem música, torcida emocionada, lágrimas, promessas e aquele velho discurso de “até que a morte nos separe”. O problema é que, muitas vezes, quem aparece de surpresa é a rotina, esse zagueiro(a) bruto, que não faz cerimônia para dar carrinho nos sonhos.

Quando o amor nasce, ninguém procura culpados. Todos são poetas. O céu é mais azul, o café tem gosto de vinho francês e até a conta de luz parece declaração de amor. Mas basta a relação começar a ranger para surgir um verdadeiro tribunal popular. De repente, aparecem, advogados e especialistas de esquina. A culpa passa a ser do marido, da mulher, do emprego, da família, da internet, do celular, da atuação da vizinha, do cachorro… Só ninguém admite que a sociedade também resolveu entrar em campo e jogar contra.

É aí que mora o elefante na sala. A sociologia dos tempos modernos mudou as regras do jogo. Nunca houve tanta liberdade, tanta autonomia, tanta independência, conquistas legítimas e indispensáveis, mas também nunca houve tanta impaciência, tanta comparação e tanta ilusão de que a felicidade mora sempre na casa ao lado. As redes sociais transformaram relacionamentos em vitrines. Todo casal parece viver um comercial de margarina, enquanto, dentro de casa, há gente que nem pensa antes de separar.

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Os homens reclamam que as mulheres mudaram. Dizem que elas estão mais exigentes, mais independentes e menos dispostas a aceitar antigos modelos de convivência. As mulheres, por sua vez, afirmam que os homens desapareceram; que faltam compromisso, maturidade, coragem para assumir responsabilidades e disposição para construir uma família. Curiosamente, ambos têm uma parte da razão. E talvez esteja justamente aí o tamanho do problema: uma enxerga perfeitamente os defeitos do outro e quase nunca os próprios.

Também não adianta dourar a pílula. Há mulheres que traem, manipulam e confundem liberdade com irresponsabilidade. Há homens que abandonam suas obrigações, fogem do diálogo e imaginam que maturidade se resolve trocando de companhia. O caráter nunca foi privilégio de um sexo nem defeito exclusivo do outro. Virtudes e fraquezas distribuem-se democraticamente entre homens e mulheres.

No fim dessa peleja, o placar costuma ser melancólico. De um lado, mulheres que carregam a solidão como quem leva uma mala pesada demais; do outro, homens que imaginavam escapar da frigideira e descobrem, tarde demais, que aterrissaram diretamente no fogo. Trocam um problema por outro, uma ilusão por outra, enquanto a felicidade continua morando onde sempre morou: na capacidade de construir, ceder e respeitar.

Mas existe uma arquibancada que jamais deveria assistir a esse espetáculo deprimente: a dos filhos. São eles que pagam o ingresso mais caro. Não escolhem o conflito, não assinam a separação e quase sempre carregam, silenciosamente, as cicatrizes de guerras que nunca provocaram. Quando pai e mãe transformam diferenças em trincheiras, quem perde o campeonato da vida são aqueles que mais precisavam de paz.

É evidente que existem situações em que a separação é inevitável. Há casos de violência, abuso, desrespeito profundo ou incompatibilidades que tornam impossível a continuidade da convivência. Separar-se, nesses casos, pode ser um ato de responsabilidade e não de fracasso. Mas, quando o caminho for realmente esse, que seja percorrido com dignidade. A paixão pode acabar; o respeito, nunca deveria acabar junto. Quem preserva a própria honra também preserva o exemplo que deixará para os filhos.

E não nos enganemos: as volúpias da carne continuam derrubando mais casamentos do que qualquer crise financeira. A sedução do novo, o prazer imediato, a ilusão de que existe alguém perfeito logo ali na esquina fazem muita gente trocar uma história inteira por um capítulo que mal começa (Puxa! Como dura pouco!). O desejo passa; as consequências costumam ficar.

Aos homens, uma lembrança que nunca envelhece: a mulher não nasceu para servir, mas para caminhar ao lado. Sua força não diminui a do homem; muitas vezes, é justamente ela que o sustenta quando o mundo desaba.

Às mulheres, outra verdade igualmente simples: igualdade não significa disputa permanente. Caminhar “face a face” ou “lado a lado” é reconhecer que ninguém vale mais nem menos. Amor não é competição; é parceria. Dignidade é para poucas!

No fim das contas, talvez o maior culpado seja o orgulho, esse atacante fominha que nunca toca a bola para ninguém. Enquanto marido e mulher insistirem em disputar quem vence a discussão, ambos continuarão perdendo o casamento.

E, convenhamos, cá entre nós: quando o diálogo sai de campo, o divórcio já está aquecendo na beira do gramado.

Aqueça o amor e não se arrependerá!

Né não?

Afonso Canabrava

Canabrava é jornalista desde o tempo do jornal O Sol, distribuído como suplentento do Jornal dos Sports. É uma enciclopédia viva da história de Belo Horizonte e um descobridor de assuntos interessantes.

  • As opiniões contidas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do portal Balcão News.

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