Iniciativa capacitou 108 indígenas para o uso seguro da energia elétrica
Um projeto do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de Minas Gerais (SENAI-MG) voltado à segurança no uso da energia elétrica entre indígenas Maxakali está entre os três finalistas do UNESCO-UNEVOC Global Awards for Innovation in TVET, premiação internacional que reconhece iniciativas inovadoras de educação e formação técnica e profissional. O resultado será anunciado em 2 de dezembro de 2026.
Desenvolvida em parceria com o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), o Ministério Público Federal (MPF) e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a iniciativa combinou capacitação profissional, adequação de instalações elétricas e respeito às características culturais das comunidades.
O projeto surgiu após dois acidentes fatais registrados entre o fim de 2023 e o início de 2024. Um deles foi provocado por uma instalação elétrica precária e vitimou um indígena enquanto carregava o celular. O outro ocorreu em decorrência de uma descarga atmosférica. Os casos levaram o MPF e o TJMG a mobilizar a Cemig, que posteriormente envolveu o SENAI na construção de uma solução.
Solução adaptada à realidade das aldeias
As ações foram realizadas nos territórios indígenas de Água Boa e Pradinho, em comunidades localizadas no Vale do Mucuri, em Minas Gerais. Uma das principais preocupações foi considerar a mobilidade das famílias Maxakali, que mudam suas moradias dentro do território.
Antes da iniciativa, as equipes encontraram instalações improvisadas, com materiais inadequados, como sacolas plásticas, fios de telefonia e arames farpados, que ampliavam os riscos de acidentes.
Para enfrentar o problema, o SENAI desenvolveu equipamentos específicos para distribuir a energia com mais segurança, incluindo quadros elétricos instalados em postes e kits destinados ao interior das ocas de pau a pique. A solução permite que os equipamentos sejam transferidos e reaproveitados quando as famílias mudam de local.
“O projeto foi criado especificamente para essa demanda. Fomos até o território, conhecemos a realidade e buscamos uma solução que pudesse melhorar a segurança, mas que também fizesse sentido para a forma como eles vivem”, explica Elmar Bueno, gerente da Unidade de Escolas Móveis do SENAI.
Formação respeita língua e cultura Maxakali
Além das intervenções nas instalações, o projeto desenvolveu uma metodologia de capacitação dividida em três etapas: acolhimento das comunidades, letramento elétrico e prática no manejo seguro da energia.
A formação foi adaptada à realidade linguística dos participantes, muitos dos quais falam predominantemente Maxakali. As atividades contaram com tradução, enquanto os materiais educativos foram elaborados em português e na língua indígena.
Ao todo, 108 indígenas foram capacitados. Iniciado com uma turma piloto em setembro de 2024, o projeto teve duração de dois anos e alcançou 28 aldeias, com a adequação de instalações em 115 ocas.
A Cemig forneceu os materiais necessários às intervenções, incluindo 357 caixas destinadas às ocas, 126 caixas de passagem, ferramentas, fiação, soquetes e lâmpadas de LED. A companhia também elaborou uma cartilha bilíngue sobre o uso seguro da energia elétrica, com ilustrações produzidas com a participação dos próprios indígenas.
Conhecimento gera autonomia
Os resultados já aparecem no cotidiano das comunidades. Em uma ocorrência recente de pane elétrica, lideranças capacitadas pelo SENAI utilizaram os conhecimentos adquiridos e os materiais disponíveis no território para solucionar o problema e restabelecer o fornecimento de energia.
Para Matheus Miranda, juiz que atuava na comarca de Águas Formosas durante a estruturação do projeto, o episódio demonstra o impacto da iniciativa para além dos números de atendimento.
“Eles acionaram as lideranças que tinham feito o curso do SENAI e o problema foi resolvido por eles mesmos. Conseguiram utilizar o material que havia ficado e restabelecer a energia com os conhecimentos adquiridos no curso”, relatou.
O gerente de Tecnologia e Automação Industrial do SENAI, Ricardo Aloysio, destaca que o reconhecimento internacional valoriza uma abordagem de educação profissional construída a partir das necessidades das comunidades.
“Ele confirma a força da educação profissional como instrumento de transformação e de geração de autonomia. O projeto com o povo Maxakali nos ensinou que levar conhecimento técnico para uma comunidade não significa simplesmente reproduzir uma formação que já existe. É preciso conhecer a realidade, respeitar a cultura, compreender as necessidades e construir, junto com as pessoas, uma solução que faça sentido para elas”, afirma.
A indicação ao prêmio UNESCO-UNEVOC reforça a proposta de uma educação profissional inclusiva e contextualizada, capaz de contribuir para a segurança, a autonomia e a melhoria das condições de vida das comunidades atendidas.
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