Brasil, o país em que a torcida só aparece nas eleições
A América do Sul, quando contemplada pelo espelho de suas próprias contradições, encontra no Brasil uma realidade socioeconômica que, apesar de todas as mazelas, ainda se mostra comparativamente mais favorável que a de seus vizinhos. Não se trata de proclamar nossa grandeza, muito menos de distribuir medalhas a um país que ainda tropeça nas próprias pernas. Trata-se, tão somente, de reconhecer que, entre os sul-americanos, o Brasil conserva vantagens que não podem ser ignoradas.
Isso, entretanto, não nos autoriza a confundir a posição de destaque no campeonato regional com a excelência dos países desenvolvidos. Entre nós e o chamado Primeiro Mundo, há um oceano de eficiência administrativa, educação, segurança, tecnologia e justiça social. Um oceano que não se atravessa com discursos inflamados, promessas eleitorais ou a velha mania nacional de acreditar que o futuro, por alguma misteriosa providência, resolverá os problemas que o presente insiste em fabricar.
Seria cômodo atribuir nosso atraso exclusivamente aos maus governantes. Eles têm, sem dúvida, sua parcela de responsabilidade, e não pequena. Mas o subdesenvolvimento brasileiro é uma criatura muito mais complexa: nasceu de desigualdades históricas, cresceu alimentado por privilégios, aprendeu a sobreviver na burocracia e desenvolveu uma extraordinária capacidade de se reproduzir a cada geração. Trocam-se os ocupantes dos palácios, mas certas estruturas permanecem sentadas, confortavelmente, nas mesmas cadeiras.
Evidentemente, bons governantes podem fazer enorme diferença. Um administrador competente, honesto e comprometido com resultados é capaz de abrir caminhos onde antes só havia obstáculos. Mas até o melhor dos governantes encontra limites quando a sociedade delega tudo ao Estado e se recolhe à confortável posição de espectadora.
É aqui que o Brasil começa a se parecer com um estádio de futebol.
A torcida comparece, grita, xinga o juiz, exige a cabeça do técnico e promete mudanças radicais. Entretanto, sua participação mais efetiva costuma acontecer quando a bola rola. Na política, guardadas as proporções, fazemos algo semelhante: a cada quatro anos, vestimos nossas camisas ideológicas, elegemos nossos craques e entregamos a eles a responsabilidade de resolver todos os problemas nacionais.
Depois, voltamos para casa.
Se o time joga mal, reclamamos. Se perde, culpamos o treinador. Se a diretoria fracassa, pedimos sua substituição. E, quando chega a próxima eleição, muitas vezes escolhemos os mesmos métodos, os mesmos vícios e, não raro, os mesmos personagens, esperando que o resultado seja diferente. A democracia, porém, não deveria ser um ingresso para assistir ao espetáculo, mas um compromisso permanente com a fiscalização de quem recebeu o poder.
No Brasil de hoje, o placar preocupa.
A crise institucional desgasta as relações entre os três Poderes, como se Executivo, Legislativo e Judiciário disputassem uma partida em que cada um pretende apitar, marcar os gols e escrever o regulamento. A situação fiscal e econômica exige decisões responsáveis, enquanto a segurança pública e a saúde continuam cobrando da população uma conta que, para milhões de brasileiros, já ultrapassou os limites do suportável.
Nesse cenário, minha avaliação pessoal é pessimista: não acredito que o governo Lula consiga contornar satisfatoriamente o conjunto dessas dificuldades e concluir o mandato nas condições em que hoje se encontra. Considero que a combinação de impasses políticos, pressões econômicas e questões relacionadas à saúde do presidente pode tornar sua permanência até o fim do mandato particularmente difícil.
É uma opinião, não uma profecia. O futuro político brasileiro tem o inconveniente de não obedecer integralmente aos prognósticos de ninguém.
Resta-nos, portanto, compreender que o Brasil não precisa apenas de um novo técnico. Precisa de uma torcida que aprenda a fiscalizar a diretoria, cobrar resultados, respeitar as regras e compreender que o destino do clube não se decide exclusivamente no dia do jogo.
Porque o verdadeiro drama brasileiro talvez não seja a falta de talentos, de riquezas ou de oportunidades. É a insistência em tratar problemas estruturais como se fossem derrotas passageiras.
E país nenhum chega ao Primeiro Mundo enquanto sua população se contentar em discutir o resultado da partida, sem jamais perguntar quem escreveu o regulamento, quem administra o clube e por que, apesar de tanta riqueza, continuamos jogando abaixo das nossas possibilidades.
No Brasil, a eleição escolhe os jogadores. A cidadania, essa obrigação que dura os quatro anos inteiros, é que deveria cobrar o campeonato.
Afonso Canabrava
- Instagram: @afonsocanabrava
Canabrava é jornalista desde o tempo do jornal O Sol, distribuído como suplentento do Jornal dos Sports. É uma enciclopédia viva da história de Belo Horizonte e um descobridor de assuntos interessantes.
- As opiniões políticas aqui expressas nesse artigo são de responsabilidade exclusiva do autor.
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