Verdade entre pais e filhos!
Há uma lei não escrita da vida que deveria vir impressa na certidão de nascimento: pais cuidam dos filhos; filhos, um dia, talvez tenham de cuidar dos pais. O problema é que a natureza, essa velha senhora de humor duvidoso, não entrega manual de instruções para nenhuma das duas tarefas.
Quando os filhos chegam à idade adulta, constituem suas famílias, criam seus filhos e começam a descobrir que educar criança não é exatamente uma excursão ao paraíso. E os pais, enquanto isso, vão envelhecendo. Devagarinho, quase escondidos, até que um belo dia percebem que os filhos já são pais e eles próprios passaram à categoria de “idosos”.
Aí começa outro campeonato.
Durante toda a infância dos filhos, pai e mãe dão tudo o que podem: comida, escola, roupa, remédio, conselho e, quando necessário, até dinheiro para aquela emergência que misteriosamente aparece todo mês. Fazem isso porque são pais. Não porque estejam emitindo uma duplicata para cobrança futura.
Filho não nasce com dívida.
A maior recompensa dos pais, em princípio, é justamente a alegria de fazer pelos filhos. Se vier gratidão, melhor ainda. Gratidão é presente; não é boleto.
Mas chega uma hora em que a partida muda de campo. O pai envelhece. A mãe envelhece. A memória pode falhar, o corpo reclama, a autonomia diminui. E aquilo que parecia tão simples, cuidar dos pais, pode virar uma operação de guerra doméstica.
É aí que o bicho pega.
Pais e filhos, embora se amem, podem descobrir que nunca foram treinados para essa inversão de papéis. O filho está acostumado a receber orientação do pai. De repente, passa a orientar o pai. O sujeito que durante cinquenta anos dizia “faça assim” começa a ouvir: “Pai, não faça isso”.
É uma mudança e tanto.
E, convenhamos, há pais que não envelhecem: apenas ficam mais teimosos com a passagem do tempo. Há também filhos que, diante de qualquer discordância, transformam uma conversa familiar numa final de campeonato, com direito a gritos, acusações e direção automobilística digna de piloto de Fórmula 1.
O velho dá um conselho sobre dinheiro.
Pronto!
Parece que alguém apertou o botão vermelho da bomba atômica.
“Você não entende!”
“Você está velho!”
“Você é difícil!”
“Você sempre foi assim!”
E o pai, sentado no banco do passageiro, olha pela janela enquanto o carro atravessa a cidade como se estivesse disputando o Grande Prêmio de Mônaco.
No íntimo, pergunta:
“Meu Deus, onde foi que eu errei?”
Talvez tenha errado justamente onde quase todos erram: imaginando que amor familiar elimina conflitos. Não elimina. Amor não é anestesia. É, no máximo, um excelente analgésico e nem sempre funciona.
Por isso, aos pais que já entraram na faixa dos sessenta, setenta ou oitenta, alguns conselhos não fazem mal.
Primeiro: não confundam experiência com autoridade absoluta. Ter vivido muito não significa ter sempre razão. E ter filhos adultos não significa ganhar uma cadeira permanente no conselho administrativo da vida deles.
Segundo: cuidado com convites que envolvam despesas que vocês não podem pagar. Dinheiro, dentro da família, é um sujeito perigosamente sensível. Entra pela porta vestido de matemática e sai pela janela fantasiado de ressentimento.
Terceiro: filhos de cinquenta anos também carregam seus próprios problemas, responsabilidades, pressões financeiras e dificuldades pessoais. Portanto, antes de atribuir toda reação intempestiva à idade, à menopausa, à andropausa ou a qualquer outra explicação simplista, convém lembrar que gente é complicada em qualquer idade. E família, então, nem se fala!
Quarto: se um filho está ajudando financeiramente o pai ou a mãe com condomínio, luz, água, telefone, internet, alimentação ou plano de saúde, isso precisa ser tratado com respeito e transparência. Ajuda financeira não deve transformar ninguém em empregado de ninguém, muito menos em inimigo de ninguém.
E aqui chegamos ao ponto principal.
Pais não devem transformar filhos em devedores morais. Filhos não devem transformar pais idosos em estorvos. Entre uma coisa e outra existe aquilo que parece simples, mas frequentemente desaparece dentro das famílias: respeito.
Pais precisam compreender que os filhos têm suas próprias vidas.
Filhos precisam compreender que os pais não deixam de ser seres humanos porque envelheceram.
Continuam tendo opiniões. Medos. Vaidades. Manias. Desejos. E, sobretudo, continuam querendo ser tratados como gente, não como um móvel antigo que precisa ser deslocado de lugar.
No fim das contas, a velhice é uma curiosa inversão de papéis: quem passou a vida ensinando começa a aprender; quem sempre foi protegido passa a proteger; e todos descobrem, geralmente tarde demais, que ninguém é dono de ninguém.
Filhos são uma das melhores coisas que a vida inventou.
Por isso, caros pais: amem, aconselhem, ajudem quando puderem, reclamem quando necessário, mas não cobrem juros emocionais.
E vocês, filhos: tenham paciência. O sujeito que hoje pergunta três vezes a mesma coisa pode ser o mesmo que, há quarenta anos, atravessava a madrugada para cuidar de vocês quando a febre chegava.
No campeonato da vida, ninguém permanece titular para sempre.
Um dia, o pai precisa do filho.
Outro dia, talvez seja o filho quem precise do pai.
E quando a partida terminar, meu amigo, não haverá VAR capaz de corrigir aquilo que poderia ter sido dito com carinho.
Né não?
Afonso Canabrava
- Instagram: @afonsocanabrava
Canabrava é jornalista desde o tempo do jornal O Sol, distribuído como suplentento do Jornal dos Sports. É uma enciclopédia viva da história de Belo Horizonte e um descobridor de assuntos interessantes.
- As opiniões contidas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do portal Balcão News.
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