Galo: Importância da Libertadores!
O Galo acaba de fazer uma coisa que parecia conversa de botequim: classificou-se para a semifinal da Sul-Americana. E, como todo bom sujeito que acaba de ganhar uma promoção, resolveu comemorar deixando um ponto escapar justamente contra a lanterna Chapecoense. Empate por 1 a 1, na Arena MRV. O futebol, às vezes, parece ter sido inventado por um roteirista de comédia.
Antes que alguém venha com o famoso, “mas o Galo dominou o jogo”, vamos devagar com o andor porque o santo é de Minas. Dominou, sim: 66% de posse, 10 escanteios contra 2 e 11 finalizações no alvo contra apenas uma da Chape. Só faltou combinar com a bola que ela deveria entrar mais vezes. Futebol não é concurso de posse de bola; se fosse, o IBGE já estaria entregando taça.
A explicação para o tropeço, entretanto, existe. O Atlético está disputando três competições, e isso cobra imposto. Jogador não é máquina de lavar roupa para funcionar no ciclo pesado todos os dias. Tem cansaço, tem necessidade de preservar titulares, tem viagens, tem pancada e tem a velha e conhecida perna que, depois de certa quilometragem, começa a mandar recado ao cérebro: “Chefe, hoje não dá para tudo isso”.
E há outra questão: a Libertadores é importante demais para ser tratada como assunto secundário. O Galo precisa pensar grande. Sul-Americana é uma competição continental de respeito, a Copa do Brasil está aí para quem quiser brigar por ela, mas a Libertadores continua sendo aquela senhora exigente que chega à porta, toca a campainha e pergunta: “Cadê o seu convite?”. O Galo precisa arrumar esse convite.
Só que o Brasileirão resolveu complicar a conversa. O empate com a Chapecoense deixou o Atlético com 40 pontos e na sétima colocação, enquanto o Cruzeiro foi ao Barradão e venceu o Vitória por 3 a 1, chegando aos 45 pontos. Cinco pontos, neste campeonato, não são uma distância: são uma pequena cordilheira.
E aqui mora o perigo. O Galo não pode jogar todas as fichas no Brasileirão enquanto está vivo em duas competições eliminatórias. Mas também não pode abandonar o campeonato nacional, porque depois aparece aquele sujeito chamado “matemática”, um cidadão antipático, porém incorruptível, para apresentar a conta no fim do ano.
A situação, portanto, exige inteligência. É perfeitamente compreensível poupar jogadores. O incompreensível seria querer ganhar três campeonatos utilizando os mesmos onze homens como se fossem aqueles guerreiros de filme que levam três tiros, levantam, sacodem a poeira e ainda perguntam onde está o próximo bandido. Até o Hulk, se estivesse por ali, pediria água.
Mas não vamos transformar um empate em tragédia grega. O Galo continua vivo, muito vivo. Faltam 14 rodadas, e em quatorze rodadas pode acontecer de tudo: time dispara, time despenca, favorito tropeça, azarão vira herói e até árbitro pode descobrir que existe VAR. O Brasileirão é uma novela em que ninguém sabe ainda quem matou o mordomo.
Portanto, nada de funeral antecipado. O Galo precisa administrar o elenco, escolher prioridades sem abandonar oportunidades e, sobretudo, continuar acreditando que há estrada suficiente para chegar à Libertadores. A Sul-Americana já mostrou que esse time sabe sobreviver à pressão. Agora precisa provar que também sabe fazer contas.
Porque, no futebol, meu amigo, classificação continental não se conquista apenas com coração; às vezes é preciso levar a calculadora para dentro de campo. E se o Galo conseguir juntar coração, futebol, inteligência e um pouco menos de susto, pode terminar o ano fazendo aquilo que a torcida atleticana mais gosta: sofrer até o último minuto e depois dizer que estava tudo sob controle.
Só não contem essa última parte ao cardiologista.
Afonso Canabrava
- Instagram: @afonsocanabrava
Afonso Canabrava nasceu na Rua São Paulo há 5 quadras do campo do Galo, aonde foi criado e aprendeu a nadar, jogar futebol e outras avenças. Foi contemporâneo dos comentários “lesco-lesco” do Kafunga, da presidência de Nelson Campos e de jogadores como Ubaldo, Dario, Reinaldo e tantos outros. Nessa época comemorou o pentacampeonato Mineiro e do Brasileirão. Torcedor contra o vento diante de uma camisa do Galo dependurada no varal, é ferrenho crítico de futebol e todas as suas nuances.
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