Galo: entrou de férias?
Tem jogo em que o time perde. Acontece. Tem jogo em que o time joga mal. Também acontece. E tem jogo em que o sujeito olha para a televisão, coça a cabeça, procura o Galo em campo e pergunta:
— Uai! Cadê o Atlético?
Ontem, na Vila Belmiro, o Galo perdeu para o Santos por 2 a 0. E, pelo que jogou, ainda pode agradecer a São Gabriel Delfim, o goleiro, que trabalhou mais que porteiro de prédio em dia de assembleia.
A imprensa não perdoou. O ge foi direto: o Atlético teve uma queda técnica no segundo tempo, desmoronou e criou “quase nada”. Delfim foi um dos poucos que se salvaram e evitou que a conta fosse ainda mais salgada.
E o problema não foi simplesmente perder.
Foi como perdeu.
O Galo entrou em campo com a disposição de quem recebeu convite para uma festa, mas descobriu, na porta, que era aniversário do cunhado.
Cadê a garra? Cadê a disputa? Cadê o amor à camisa?
Alguém precisa explicar aos jogadores que chegaram agora ao Atlético que vestir a camisa do Galo não é colocar uma camiseta preta e branca para tirar fotografia. Aqui tem que correr, brigar pela bola, disputar cada palmo de gramado e, se necessário, chegar em casa pedindo desculpas ao fisioterapeuta.
O Santos, mesmo sem Neymar em campo, foi mais organizado, mais eficiente e mais perigoso. O Galo, ao contrário, parecia estar administrando uma vantagem que não existia. O segundo gol de Oliva veio depois de uma sequência em que o Santos rondou a área atleticana com a tranquilidade de quem procura vaga no estacionamento.
E o Barba foi sincero depois do jogo: poderíamos ter perdido por mais.
Ora, excelente!
Só faltou explicar por que poderíamos ter perdido por mais.
Porque o problema não é apenas o tamanho da derrota. É o tamanho da apatia.
Até crítica à escalação apareceu. Chico Maia questionou, por exemplo, a presença de Lyanco entre os titulares depois de longo período sem jogar, enquanto Vitão vinha crescendo. E apontou que o Santos fez, segundo avaliação reproduzida por ele, seu melhor jogo do ano, enquanto o Atlético fazia um dos piores.
Agora vem a parte em que o torcedor começa a fazer contas.
Se o Galo perder a Sul-Americana, der adeus à Copa do Brasil e terminar o Campeonato Brasileiro sem vaga na Libertadores, teremos uma situação interessantíssima.
Habemos Papa!
Digo…
Habemos técnico!
Porque futebol brasileiro é assim: quando o time ganha, todo mundo é gênio. Quando perde, o culpado aparece mais rápido que político em inauguração.
Mas não adianta trocar treinador se os jogadores continuarem entrando em campo com alma de funcionário público na sexta-feira às 16h55.
O Galo ainda está vivo. Precisa ganhar por três gols para avançar diretamente na Sul-Americana; por dois, leva a decisão aos pênaltis. Portanto, a vaca ainda não foi para o brejo.
Mas já está olhando para ele.
Na Arena MRV, quarta-feira, não será necessário jogar bonito.
Será necessário jogar como Atlético.
Com sangue, suor, raça e vontade.
Porque torcida do Galo aceita derrota.
O que ela não aceita é jogador perder o jogo antes mesmo de a bola entrar em campo.
E ontem, convenhamos, teve gente que parece ter esquecido de avisar que férias ainda não começaram.
O Galo não pode entrar em campo de chinelo.
Porque, se continuar assim, quem vai tirar férias é a torcida.
E essa, meus amigos, é a única que não podemos perder.
Né não?
Afonso Canabrava
- Instagram: @afonsocanabrava
Afonso Canabrava nasceu na Rua São Paulo há 5 quadras do campo do Galo, aonde foi criado e aprendeu a nadar, jogar futebol e outras avenças. Foi contemporâneo dos comentários “lesco-lesco” do Kafunga, da presidência de Nelson Campos e de jogadores como Ubaldo, Dario, Reinaldo e tantos outros. Nessa época comemorou o pentacampeonato Mineiro e do Brasileirão. Torcedor contra o vento diante de uma camisa do Galo dependurada no varal, é ferrenho crítico de futebol e todas as suas nuances.
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