Galo voltou com a corneta afinada!
Eu avisei. Não foi ontem, nem anteontem. Depois da Copa do Mundo, disse que o Galo ia voltar diferente. Pois voltou. E voltou daquele jeito que o atleticano gosta: fazendo o sujeito sofrer até o último minuto, mas entregando a classificação com a solenidade de quem paga a conta no fim do jantar.
A imprensa agora descobriu uma coisa que nós, atleticanos, já sabíamos: o Galo está jogando bola.
Depois da Copa, ninguém no Brasil tem aproveitamento melhor que o Atlético. São dez jogos, sem perder: O Cruzeiro vem atrás, respirando pelo cangote, mas isso é problema deles.
E o negócio não para aí.
No Brasileirão, o Galo já está batendo na porta da Libertadores. Está a poucos pontos da zona de classificação e, pelo futebol que vem apresentando, a porta já está entreaberta. Falta só alguém lá dentro perceber que tem um sujeito de preto e branco batendo com força.
Na Sul-Americana, então, foi aquela velha especialidade mineira: emoção até o cidadão perder a pressão arterial.
Contra o Bragantino, o Galo empatou por 2 a 2 e avançou às quartas de final. O agregado ficou 3 a 2. E, se alguém quiser saber quem segurou a peteca quando a coisa ficou preta, pergunte ao Everson. O homem fez defesa atrás de defesa e voltou a ser tratado pela imprensa como um dos grandes goleiros do futebol brasileiro. O próprio clube registrou sete defesas dele no primeiro jogo e uma atuação decisiva na classificação.
Everson já não pega pênalti. Ele pega desaforo.
E o Galo continua vivo na Copa do Brasil. Ou seja: enquanto alguns brasileiros estão fazendo conta, escolhendo competição e explicando eliminação, o Atlético está fazendo o contrário: continua em três frentes.
E aqui vem a parte mais interessante.
Esse time que está invicto depois da Copa, que tem o melhor aproveitamento do país nesse período e que está chegando perto do G-6, ainda não está completo.
O principal reforço da janela, Fred, chegou com currículo de Europa, Seleção Brasileira, Manchester United, Shakhtar Donetsk e Fenerbahçe. Assinou até 2029 e ainda nem estreou.
Também chegaram Léo Duarte, Kevin Castaño e Thiago Borbas. O que significa que o Galo está fazendo tudo isso antes de colocar a turma nova para trabalhar de verdade.
É como se o sujeito estivesse ganhando uma corrida de automóvel com três cilindros e avisasse:
— Calma que ainda vou ligar o quarto.
A mídia, que antes olhava para o Galo com aquele ar de quem examina um cadáver, agora começou a mudar o discurso. Fala-se em recuperação, invencibilidade, melhor aproveitamento, força do elenco, crescimento coletivo e, principalmente, em um Atlético que voltou da Copa mais competitivo.
Pois é.
O Galo não voltou da Copa para participar.
Voltou para incomodar.
E isso, meus amigos, é muito diferente.
O Atlético ainda precisa melhorar, evidentemente. Futebol não é missa e ninguém ganha campeonato por bom comportamento. Mas existe uma coisa que o time recuperou e que vale ouro: confiança.
O Galo está vivo no Brasileirão, está nas quartas da Sul-Americana, continua na Copa do Brasil e tem reforços importantes esperando a hora de entrar em campo.
Portanto, aviso aos navegantes:
não confundam silêncio com fraqueza.
O Galo pode até não estar fazendo barulho.
Mas está chegando.
E quando o atleticano começa a olhar a tabela e fazer conta sem precisar de calculadora, é porque alguma coisa está acontecendo.
Eu, por via das dúvidas, já estou procurando o rádio.
Porque, como dizia a velha escola da bola, quando o Galo encosta, é bom olhar para trás.
Vai que ele passa.
E, se passar, depois não adianta reclamar com o juiz.
A culpa foi minha.
Né não?
Afonso Canabrava
- Instagram: @afonsocanabrava
Afonso Canabrava nasceu na Rua São Paulo há 5 quadras do campo do Galo, aonde foi criado e aprendeu a nadar, jogar futebol e outras avenças. Foi contemporâneo dos comentários “lesco-lesco” do Kafunga, da presidência de Nelson Campos e de jogadores como Ubaldo, Dario, Reinaldo e tantos outros. Nessa época comemorou o pentacampeonato Mineiro e do Brasileirão. Torcedor contra o vento diante de uma camisa do Galo dependurada no varal, é ferrenho crítico de futebol e todas as suas nuances.
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