Galo: Foi ao Pará remar… e quase afogou!
O Atlético foi ao Pará enfrentar o Remo e voltou com um ponto, dois gols marcados, dois sofridos e a velha certeza de que torcer para o Galo continua sendo uma atividade de alto risco, recomendada apenas para maiores de idade e portadores de coração devidamente cadastrado no SUS.
O jogo mal havia começado e o Remo já meteu um gol.
Dois minutos!
A defesa atleticana provavelmente ainda estava discutindo quem marcaria quem, quem cobriria quem e quem teria esquecido de avisar que a partida começava às seis e meia.
O Remo avisou.
Gol.
O torcedor do Galo, naturalmente, fez aquilo que todo atleticano sabe fazer com excelência: começou a xingar o passado, o presente, o futuro e, se possível, a escalação do Campeonato Brasileiro de 1977.
Mas o Galo reagiu.
E reagiu bonito.
Reinier empatou. Bernard virou quatro minutos depois.
Aí começou aquela parte perigosa do jogo: o atleticano acreditou.
Erro gravíssimo.
Atleticano não pode acreditar cedo demais. Dá azar.
Quando o Galo vira uma partida, o torcedor deveria permanecer sentado, com o rádio desligado, sem fazer movimentos bruscos e, principalmente, sem pronunciar a frase:
Agora está tranquilo.
Não está.
Nunca está.
O Atlético tinha virado, controlava a partida e parecia caminhar para trazer de Belém três pontos importantíssimos.
Só que o Galo, como certas pessoas que recebem dinheiro no quinto dia útil, não sabe administrar.
E o segundo tempo veio para provar isso.
O Remo empatou.
Gabriel Taliari fez o segundo e devolveu ao Mangueirão a alegria que o Atlético havia tomado emprestada durante alguns minutos.
Pronto.
O jogo virou aquele conhecido filme atleticano:
“Procura-se a vitória que estava aqui.”
O problema não foi empatar.
O problema foi permitir que uma partida que estava praticamente encaminhada voltasse a ficar à mercê do adversário.
E isso é uma doença antiga do Galo.
O time faz uma coisa boa e, imediatamente, sente necessidade de fazer outra coisa desnecessária.
É como aquele sujeito que paga a conta do restaurante e, na saída, resolve discutir com o garçom porque a nota fiscal veio com uma vírgula fora do lugar.
O Atlético tem futebol.
Isso está evidente.
Reinier e Bernard mostraram isso. O time teve reação, teve capacidade de virar uma partida fora de casa e mostrou personalidade.
Mas tem também uma extraordinária vocação para complicar.
A defesa, em certos momentos, parece trabalhar com o seguinte princípio:
“Se podemos resolver a jogada facilmente, por que não transformar isso numa questão de Estado?”
E lá vai o adversário.
Corre dali.
Cruza daqui.
A bola pinga.
O coração acelera.
O narrador grita.
O torcedor levanta.
A esposa pergunta:
Que aconteceu?
E o atleticano responde:
Nada.
Mentira.
Aconteceu tudo.
O 2 a 2 acabou sendo justo pelo que os dois fizeram, mas para o Galo ficou aquele gosto amargo de quem tinha a vitória no bolso e resolveu lavar a calça junto com o dinheiro.
Mais dois pontos que escaparam.
E campeonato brasileiro é exatamente isso: enquanto uns somam pontos, outros ficam fazendo contabilidade sentimental.
“Jogamos bem.”
“Reagimos.”
“Criamos.”
“Mostramos força.”
Muito bonito.
Mas a tabela, essa senhora sem coração, não aceita poesia.
Ela quer pontos.
Três.
De preferência.
O Galo precisa entender que não basta ter bons jogadores. É preciso jogar como time durante noventa minutos, e não durante aqueles vinte minutos em que a coisa aperta e todo mundo resolve lembrar que futebol é coletivo.
O torcedor atleticano já está acostumado com sofrimento.
Aliás, se sofrimento desse título, o Atlético seria campeão brasileiro todo ano.
O problema é que sofrimento não dá taça.
Dá gastrite.
E o Galo já tem experiência suficiente nesse departamento.
No Mangueirão, o Remo remou.
O Galo chegou a virar o barco.
Mas, quando parecia que ia atracar com três pontos, resolveu fazer turismo no meio do rio.
Resultado: 2 a 2.
Um ponto para cada lado.
E uma pergunta para o Atlético:
Até quando o Galo vai continuar fazendo o torcedor sofrer por aquilo que ele mesmo poderia evitar?
Porque futebol, meus amigos, é coisa simples.
Tem gol.
Tem defesa.
Tem meio-campo.
Tem ataque.
E tem uma regra antiga que ninguém conseguiu revogar:
Quem quer ganhar campeonato não pode ficar entregando jogo de presente.
O Galo precisa parar de brincar de Remo.
Porque, se continuar assim, qualquer dia desses o torcedor vai precisar trocar a camisa preta e branca por um colete salva-vidas.
E isso, convenhamos, não combina nem um pouco com o uniforme.
O Galo não morreu.
Está vivo.
E tem futebol para brigar.
Mas precisa urgentemente descobrir que campeonato brasileiro não é campeonato de emoção.
É campeonato de ponto.
E ponto, como dizia aquele velho torcedor de arquibancada, não se pede.
Pega-se.
Ou depois fica todo mundo reclamando que o barco passou.
Né não?
Afonso Canabrava
- Instagram: @afonsocanabrava
Afonso Canabrava nasceu na Rua São Paulo há 5 quadras do campo do Galo, aonde foi criado e aprendeu a nadar, jogar futebol e outras avenças. Foi contemporâneo dos comentários “lesco-lesco” do Kafunga, da presidência de Nelson Campos e de jogadores como Ubaldo, Dario, Reinaldo e tantos outros. Nessa época comemorou o pentacampeonato Mineiro e do Brasileirão. Torcedor contra o vento diante de uma camisa do Galo dependurada no varal, é ferrenho crítico de futebol e todas as suas nuances.
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