Galo X Bahia: O Galo esqueceu que a partida tinha 90 minutos

Torcedor atleticano Galo x Bahia 21.07.2026Torcedor atleticano Galo x Bahia 21.07.2026
Galo X Bahia: O Galo esqueceu que a partida tinha 90 minutos. Foto: Daniela Veiga/CAM.

Canabrava em Campo

Tem dia em que o futebol resolve contar piada. O problema é quando quem paga o ingresso acaba sendo o próprio palhaço.

O Atlético recebeu o Bahia, na Arena MRV e, durante quarenta e cinco minutos, fez a torcida acreditar que Santo Expedito havia finalmente voltado a morar em Lourdes. O time tocava a bola, pressionava, criava oportunidades e marcou com justiça. Parecia que o Galo havia decidido tirar férias da irregularidade.

Veio o intervalo.

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E, junto com ele, alguém deve ter desligado a chave geral da coragem.

O segundo tempo foi uma verdadeira homenagem ao futebol burocrático, esse vírus moderno que anda contaminando os gramados. O Bahia, que até então assistia ao jogo como quem espera consulta em repartição pública, percebeu que o dono da casa havia cochilado. Agradeceu a gentileza, empatou com Ademir, porque ex-jogador do Atlético parece ter cláusula contratual obrigando a marcar contra o antigo clube, e passou a jogar como visitante que descobriu que o cachorro da casa só late.

A mídia foi praticamente unânime. Falou em elenco curto, falta de criatividade, ausência de reforços, dificuldade para controlar a partida, excesso de oscilações e um futebol incapaz de sustentar noventa minutos de autoridade. Traduzindo para o idioma da arquibancada: o Galo continua sendo um automóvel de luxo com motor de carroça. Anda bonito na descida. Na subida, precisa de empurrão.

O mais engraçado é que hoje todo mundo entende de GPS, intensidade, mapa de calor, corredor interno, pressão coordenada, transição ofensiva e recuperação pós-perda. Só esqueceram de ensinar uma velha lição que o futebol conhece desde o tempo em que a chuteira pesava dois quilos: quem faz um gol precisa continuar querendo fazer o segundo.

O Atlético virou especialista em administrar vantagem de um gol como quem administra uma fábrica de cristais durante um terremoto.

Fica rezando para nada acontecer.

Sempre acontece.

A bola pune a covardia com uma pontualidade suíça.

É curioso observar esse futebol moderno. Os treinadores carregam notebooks maiores que a prancheta de um engenheiro da NASA. Os auxiliares conversam com tablets. Os analistas entregam relatórios de cinquenta páginas. Os jogadores usam coletes eletrônicos, relógios inteligentes, sensores, drones sobrevoam os treinos, e o departamento de desempenho mede até o número de piscadas de cada atleta.

Mas ninguém mede uma estatística que continua decidindo campeonatos desde que Charles Miller desembarcou por aqui: personalidade.

Sem ela, o resto é PowerPoint.

A Arena MRV continua empurrando o time como poucas torcidas fazem no Brasil. O torcedor canta, vibra, sofre, compra camisa, paga ingresso e transforma o estádio num caldeirão. Em troca, recebe um Atlético que insiste em tratar o segundo tempo como se fosse uma desagradável obrigação do regulamento.

Claro que futebol não aceita desaforo nem preguiça. E completaria que quem joga apenas metade da partida merece receber apenas metade dos aplausos.

Ainda dá tempo de corrigir a rota.

Mas alguém precisa avisar ao Galo que Campeonato Brasileiro não distribui pontos por posse de bola, mapa de calor, estatística de passes certos ou discursos otimistas em entrevista coletiva.

Distribui por vitória.

E vitória exige uma qualidade que parece estar em falta no mercado da bola: vergonha de entregar um jogo que estava nas próprias mãos.

O resto é conversa de dirigente, apresentação em telão e coletiva cheia de palavras bonitas.

A tabela, essa senhora mal-humorada que não se impressiona com discursos, continua repetindo a mesma pergunta:

— O Atlético pretende jogar futebol durante noventa minutos… ou continuará fazendo assinatura mensal de apenas um tempo?

Né não?

Afonso Canabrava

Afonso Canabrava nasceu na Rua São Paulo há 5 quadras do campo do Galo, aonde foi criado e aprendeu a nadar, jogar futebol e outras avenças. Foi contemporâneo dos comentários “lesco-lesco” do Kafunga, da presidência de Nelson Campos e de jogadores como Ubaldo, Dario, Reinaldo e tantos outros. Nessa época comemorou o pentacampeonato Mineiro e do Brasileirão. Torcedor contra o vento diante de uma camisa do Galo dependurada no varal, é ferrenho crítico de futebol e todas as suas nuances.

  • As opiniões contidas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do portal Balcão News.

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