A Copa: da frescura tática!
Depois da inesquecível Laranja Mecânica da Holanda de Rinus Michels e Johan Cruyff, em 1974, toda Copa do Mundo deixou alguma invenção para a história. Uns chamaram de revolução; outros, de evolução. Mas a Copa de 2026 resolveu inovar tanto que, em muitos momentos, parecia campeonato de xadrez jogado com chuteiras.
A Holanda nos ensinou que onze jogadores podiam atacar, defender e pensar ao mesmo tempo. Era futebol total. Em 1982 veio a seleção brasileira que perdeu a Copa, mas ganhou a eternidade. Em 1986 apareceu Maradona fazendo da bola um brinquedo. Em 1998 começou a era da preparação física acima do talento. Em 2010, a Espanha transformou o passe curto numa religião. Depois vieram o “gegenpressing”, a marcação por GPS, o ponta que não é ponta, o centroavante que não é centroavante, o lateral que vira volante e o volante que termina o jogo de zagueiro. Faltava apenas o goleiro cobrar escanteio e o massagista marcar por encaixe individual.
A Copa de 2026 foi o auge dessa maluquice organizada.
A imprensa mundial quase entrou em consenso: nunca se correu tanto para criar tão pouco.
O futebol ficou parecido com reunião de condomínio. Todo mundo fala, ninguém resolve.
As maiores críticas foram praticamente unânimes.
Primeiro, a obsessão pelas pranchetas. Parecia que alguns treinadores tinham mais medo de perder do que vontade de ganhar. O empate passou a ser tratado como obra de arte. A retranca virou patrimônio histórico da humanidade.
Segundo a ditadura da intensidade. Jogador hoje percorre quinze quilômetros por partida, mas, quando chega perto da área, parece esquecer que a bola também pode entrar pelo gol.
Terceiro, o excesso de passes laterais. Houve partidas em que a bola viajou mais que turista americano e continuou exatamente no mesmo lugar. Posse de bola virou estatística para iludir comentarista. Quem pagou ingresso queria emoção; recebeu planilha.
Quarto, a tecnologia. O VAR continua acertando muito e convencendo pouco. O sujeito comemora o gol olhando para o telão, como quem espera o resultado do exame de sangue. Até o grito de gol ganhou prazo de validade.
Quinto, os técnicos. Nunca se deu tanta entrevista para explicar derrotas que o torcedor já havia entendido nos primeiros quinze minutos. Hoje há treinador capaz de perder de quatro e dizer que venceu no “volume ofensivo”. Só faltam entregar medalha para quem teve mais escanteios improdutivos.
É verdade que a Copa também revelou boas seleções, grandes goleiros, talentos promissores e partidas memoráveis. A Espanha mostrou um futebol coletivo de altíssimo nível, a Argentina voltou a ser competitiva, e algumas equipes menores provaram que organização pode equilibrar diferenças técnicas. Mas, no balanço geral, o brilho individual apareceu bem menos do que a história da Copa acostumou o mundo a ver.
O drible passou a ser tratado como ato de rebeldia. O camisa 10 virou espécie em extinção. O ponta que parte para cima ganhou fama de irresponsável. Hoje, se Garrincha aparecesse, algum treinador o tiraria do time por “perder a estrutura defensiva”. Se Pelé surgisse, talvez mandassem fazer curso de recomposição. E se Tostão resolvesse flutuar entre as linhas, algum analista perguntaria qual era o mapa de calor dele.
Eu digo que enlouqueceram o futebol. Transformaram o jogo mais bonito do planeta numa ciência exata, esquecendo que a bola sempre foi redonda justamente para desafiar qualquer teoria.
Porque futebol nunca foi laboratório. Futebol é atrevimento, improviso, genialidade, irreverência e coragem.
E quando a coragem perde para a calculadora, quem sai derrotado não é apenas um time.
É o espetáculo.
Né não?
Afonso Canabrava
- Instagram: @afonsocanabrava
Afonso Canabrava nasceu na Rua São Paulo há 5 quadras do campo do Galo, aonde foi criado e aprendeu a nadar, jogar futebol e outras avenças. Foi contemporâneo dos comentários “lesco-lesco” do Kafunga, da presidência de Nelson Campos e de jogadores como Ubaldo, Dario, Reinaldo e tantos outros. Nessa época comemorou o pentacampeonato Mineiro e do Brasileirão. Torcedor contra o vento diante de uma camisa do Galo dependurada no varal, é ferrenho crítico de futebol e todas as suas nuances.
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