Imersão na História da Arte - Parte XII

História, Curiosidades, Reflexões - Coluna Meg E.

Imersão na História da Arte - Parte XII
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Movimentos e períodos da arte

Inseridos em diferentes períodos da arte alguns movimentos se tornaram trechos importantes na história e por si só representaram momentos de expressão e deixaram suas marcas, tanto no passado quanto no presente e legado para o futuro.

Dadaísmo

O movimento que chocou a arte

Sabe aquela arte inexplicável, sem sentido, rabiscada e desenhada a esmo? Isso existiu sim, e tem um nome: Dadaísmo ou “movimento dadá”

Foi um movimento que propunha confundir os critérios artísticos, que surgiu no século XX, durante a Primeira Guerra Mundial e tinha um viés de antiarte, contestatório aos valores da época e contrário à racionalidade e à arte acadêmica, privilegiou o nonsense (ausência de significado) e defendeu a arte espontânea.

Esse movimento teve início em Zurique, na Suíça, liderado por alguns artistas que se opunham à guerra e ao nacionalismo que imergia na Europa. A escolha de Zurique não se deu ao acaso, tendo a Suíça como berço por causa de sua neutralidade e que abrigava muitos artistas, refugiados de seus países de origem e varridos pelos horrores da guerra.

“O movimento surgiu, oficialmente, em Zurique, no dia 14 de julho de 1916, com seu primeiro manifesto, assinado pelo escritor alemão Hugo Ball (1886-1927), com esta introdução:

“Dadá é uma nova tendência da arte. Percebe-se que o é porque, sendo até agora desconhecido, amanhã toda a Zurique vai falar dele”.

Segundo o manifesto, o significado da palavra dadá, em francês, é “cavalo de pau”; em alemão, “Não me chateies, faz favor, adeus, até a próxima!”; em romeno, “Certamente, claro, tem toda a razão, assim é. Sim, senhor, realmente. Já tratamos disso”. Nessas definições, já se pode perceber que o movimento era pautado pela ironia. No final das contas, a palavra dadá, para os dadaístas, não tem nenhum significado ou tem todos os significados”.

Com um slogan baseado na proposta de que “destruir também é criar”, esse movimento ficou conhecido por apresentar um forte caráter anárquico.

Sua filosofia se fundamentava na diversificação da arte, envolvendo poesia, teatro, fotografia, pintura e todos os estilos que afloravam na veia artística de seus seguidores. Sob a ótica de que tudo que se usasse, todo material que passasse pelas mãos de um artista, todo utensílio transformado, manuseado era visto como uma produção artística.

Foi assim que surgiu o conceito ready-made, uma forma radicalizada da arte que transformava objetos industriais do cotidiano em obras artísticas.

Uma das obras mais famosas, daquilo que se propunha a antiarte do movimento, foi Fonte (1917) de Michel Duchamp que nada mais era que um mictório de porcelana branca assinado por um pseudônimo do artista. Michel Duchamp foi sem dúvida o representante mais proeminente do Dadaísmo. Outra obra desse artista inquieto e irreverente, símbolo do movimento que retrata esse estilo estético, questionador e provocativo do movimento, é LHOOQ (1919), que exibia um cartão postal barato da Monalisa rabiscada com bigode e cavanhaque. Ao fazer uma sátira de uma das maiores obras do Renascentismo ele rejeitava os padrões estéticos e os conceitos de arte elevada.

Raoul Hausmann também chamou a atenção pelo seu trabalho. The Art Critic (1919) apresentava uma colagem onde juntava fotos de revistas e jornais com alguns desenhos, simbolizando que os críticos de arte tinham um conhecimento “remendado “e vago, ou seja, não entendiam nada de arte. Mechanischer Kopf (1919) que na sua tradução significava “cabeça mecânica” foi outra obra desse artista que tecia forte crítica à superficialidade da arte. Uma cabeça de manequim adornado por uma régua, um relógio de bolso e outros objetos, questionava a forma como a humanidade interagia com os objetos ao seu redor e o rosto inexpressivo do homem mostrava indiferença com as coisas que ele mesmo criou.

Os principais artistas do dadaísmo europeu foram: Hugo Ball, Hans Arp, Tristan Tzara, Marcel Duchamp, Francis Picabia, André Breton, Max Ernst, Hannah Höch e Raoul Hausmann. Desses artistas, há destaque para os escritores Hugo BallTristan Tzara e Raoul Hausmann, que produziram uma literatura que influenciou modernistas e concretistas brasileiros.

O Dadaísmo no Brasil influenciou alguns artistas plásticos, porém a influência maior foi vista na literatura repercutindo no modernismo, em obras arrojadas e polêmicas.

Entre os principais artistas plásticos, que vestiram a camisa como artistas dadaístas brasileiros estão Flávio de Carvalho, um dos artistas que trouxeram o Dadaísmo para o Brasil e Ismael Nery, relevante artista modernista, o pintor também circundou o surrealismo, enquanto se apropriava das características dadaístas e ajudava na construção de um legado para o dadaísmo no Brasil. 

Além da pintura, a literatura adotou as características do dadaísmo no Brasil representada por Manuel Bandeira e Mário de Andrade, o autor mais expressivo do movimento.

Com uma linguagem brasileira livre e o uso estratégico e abusado de paródias, Mário de Andrade, um dos “fundadores” do modernismo no Brasil, usou e abusou das características dadaístas em seus poemas. 

Em “Paulicéia Desvairada” são evidentes os elementos do dadaísmo, em especial, no poema “Ode ao Burguês”:

Ode ao Burguês

“Eu insulto o burgês! O burguês-níquel, 

o burguês-burguês! 

A digestão bem feita de São Paulo! 

O homem-curva! o homem-nádegas! 

O homem que sendo francês, brasileiro, italiano, 

é sempre um cauteloso pouco-a-pouco! (…)”

Mário de Andrade

Encerro minha coluna de hoje com a expressão máxima de Tzara que disse que o grande segredo da poesia é que

"o pensamento se faz na boca".

Espero ter contribuído para o enriquecimento daqueles que acompanham e apreciam meu trabalho.

Até a próxima!!!