Seleção: Entre a desconfiança e o cheiro do Hexa – Canabrava em Campo

Vini Junior feliz Vini Junior feliz
Vini Júnior, então, resolveu vestir a capa de protagonista. Foto: Rafael Ribeiro/CBF.

Seleção: Entre a desconfiança e o cheiro do Hexa

É de bom alvitre pisar no freio da empolgação e pisar mais ainda no acelerador da ironia. Eu diria que brasileiro é um bicho engraçado: passa quinze dias chamando a Seleção de perna-de-pau e, depois de uma vitória convincente, já começa a procurar espaço na sala para pendurar a faixa do Hexa.

Até ontem, boa parte da crônica esportiva olhava para a Seleção de Carlo Ancelotti como quem observa uma churrasqueira que insiste em soltar fumaça sem mostrar a carne. O empate com Marrocos deixou dúvidas. A vitória sobre o Haiti trouxe três gols, mas não trouxe unanimidade. O time parecia uma orquestra afinando os instrumentos enquanto a plateia já exigia o concerto.

Mas aí veio a Escócia.

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O Brasil venceu por 3 a 0, terminou em primeiro lugar do grupo e, pela primeira vez na Copa, apresentou futebol de candidato a coisa grande. Não foi apenas a vitória; foi a sensação de que cada jogador finalmente descobriu onde estacionar o próprio talento. Vini Júnior, então, resolveu vestir a capa de protagonista e lembrar ao mundo que, quando joga solto, transforma lateral em poste e zagueiro em testemunha ocular. Dois gols, velocidade, ousadia e aquele ar de quem sabe exatamente o que está fazendo.

Matheus Cunha também merece aplausos. Tem sido o operário elegante da equipe: trabalha, se movimenta, incomoda e ainda aparece para marcar. Bruno Guimarães cresceu de produção. E Neymar, mesmo voltando depois de longa ausência, mostrou que continua enxergando linhas de passe que os demais só percebem quando assistem ao replay.
O que mudou? Talvez o time tenha finalmente entendido que camisa amarela não joga sozinha. Talvez Ancelotti tenha encontrado o encaixe. Talvez a Copa seja isso mesmo: uma sucessão de desconfianças até que alguém resolva jogar bola.

Mas calma. Como diria um velho cronista de boteco, ainda não entregaram a taça no quarto do hotel brasileiro.
A verdade é que o futebol apresentado até aqui permite esperança, mas não autoriza salto ornamental na piscina da euforia. A defesa está sólida, o ataque começou a produzir e o elenco possui talento suficiente para enfrentar qualquer adversário. Por outro lado, seleções como Alemanha, Argentina, França, Holanda e Inglaterra continuam rondando o torneio como tubarões esperando distração.

As chances de título? Reais. Não porque o Brasil seja uma máquina perfeita. Justamente porque ninguém parece ser. A Copa de 2026 não apresenta um bicho-papão absoluto. Há candidatos fortes, mas nenhum invencível. Nesse cenário, uma Seleção organizada, com Vini em estado de graça e Neymar contribuindo quando necessário, pode perfeitamente chegar às semifinais e sonhar seriamente com o Hexa.

O torcedor brasileiro, porém, é um personagem peculiar. Na segunda-feira, se o Brasil vencer, dirá que sempre acreditou. Se perder, jurará que avisou desde o empate contra Marrocos.

E assim seguimos.

Entre a corneta e a esperança.

Entre a crítica e o samba.

Entre o medo do vexame e a tentação do Hexa.

Como sempre foi no futebol brasileiro.

Né não?

Afonso Canabrava

Afonso Canabrava nasceu na Rua São Paulo há 5 quadras do campo do Galo, aonde foi criado e aprendeu a nadar, jogar futebol e outras avenças. Foi contemporâneo dos comentários “lesco-lesco” do Kafunga, da presidência de Nelson Campos e de jogadores como Ubaldo, Dario, Reinaldo e tantos outros. Nessa época comemorou o pentacampeonato Mineiro e do Brasileirão. Torcedor contra o vento diante de uma camisa do Galo dependurada no varal, é ferrenho crítico de futebol e todas as suas nuances.

  • As opiniões contidas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do portal Balcão News.

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