Seleção Brasileira: Patrimônio Nacional
Todo brasileiro tem um calendário diferente do resto do mundo. Há o dia do pagamento, o dia da prestação do carro, o dia de levar menino ao médico e… o dia da Seleção Brasileira. Nesse último, o país muda de humor. O patrão fica mais bonzinho, o empregado trabalha pensando no apito inicial, o trânsito parece ter combinado um armistício e até quem vive brigando com a vida encontra noventa minutos para esquecer que o aluguel venceu. É por isso que os jogos da Seleção têm um valor que muita gente não entende. Não são apenas partidas de futebol; são pequenas férias da alma, principalmente para quem passa o ano inteiro lutando para colocar comida na mesa. O rico tem resort, avião e vinho caro. O pobre tem o domingo, a família, uma televisão ligada e a esperança de ver o Brasil ganhar. Quem despreza isso nunca entendeu o povo brasileiro.
O jogo de ontem contra o Japão foi exatamente daqueles que fazem a camisa amarela valer mais do que qualquer estatística. O Brasil saiu atrás, levou um susto daqueles e deu a impressão de que teria uma noite indigesta. O Japão mostrou organização, disciplina e coragem, enquanto a nossa equipe demorava a encaixar as jogadas. Mas camisa pesada não ganha jogo sozinha; ela apenas lembra aos jogadores que existe uma história enorme para ser honrada.
Na volta do intervalo, a conversa parece ter surtido efeito. O meio-campo passou a acelerar a circulação da bola dentro da área adversária, os laterais apareceram mais e a pressão foi crescendo. O empate veio como consequência natural de quem resolveu jogar futebol em vez de ansiedade. A partir daí o Japão sentiu o peso da insistência brasileira, e o jogo virou completamente de lado.
Quando saiu o gol da vitória, fechando o 2 a 1, foi como se milhões de brasileiros tivessem feito o mesmo movimento ao mesmo tempo: levantar do sofá, gritar e abraçar quem estivesse por perto. A classificação veio com méritos reconhecidos pela imprensa esportiva, que destacou a capacidade de reação, a força mental da equipe e a persistência de um time que se recusou a aceitar a derrota. Foi vitória de caráter, daquelas que costumam ensinar mais do que goleadas.
Dentro de campo, porém, ainda há serviço a fazer. O time mostra talento de sobra, mas continua faltando aquele fio invisível que liga a defesa ao ataque. Em vários momentos, a bola sai lentamente da zaga, o meio demora a oferecer opções e os atacantes acabam isolados. Carlo Ancelotti conhece esse filme. Vai precisar aproximar os setores, dar mais compactação ao time, acelerar a transição ofensiva e fazer com que a marcação comece lá na frente, sem deixar a defesa exposta. Quando esse mecanismo funcionar como um relógio, a Seleção ficará muito mais difícil de ser batida.
E quanto ao hexa? A esperança continua vestindo amarelo. Porque, quando a bola começa a rolar, ninguém consegue apagar a maior tradição do futebol mundial. Enquanto houver um brasileiro acreditando, haverá um país inteiro sonhando.
O hexa ainda não mora na nossa estante, mas continua morando, com toda justiça, no coração do povo brasileiro.
Né não?
Afonso Canabrava
- Instagram: @afonsocanabrava
Afonso Canabrava nasceu na Rua São Paulo há 5 quadras do campo do Galo, aonde foi criado e aprendeu a nadar, jogar futebol e outras avenças. Foi contemporâneo dos comentários “lesco-lesco” do Kafunga, da presidência de Nelson Campos e de jogadores como Ubaldo, Dario, Reinaldo e tantos outros. Nessa época comemorou o pentacampeonato Mineiro e do Brasileirão. Torcedor contra o vento diante de uma camisa do Galo dependurada no varal, é ferrenho crítico de futebol e todas as suas nuances.
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