O tempo nunca para

Coluna Confusão - José Francisco Resende

O tempo nunca para
Reprodução Internet

Olá a todos.

Vida estranha vida. Uma sucessão de fases e comportamentos que sempre nos mostram o quanto plural é a nossa existência.

Na vida intrauterina, somos um ser, mas como um satélite estamos ligados literal e umbilicalmente ao ser que nos gera, que nos alimenta e que em mais e cada vez menos tempo, nos dará uma vida, que se tornará em algum tempo uma imensa folha de papel em branco onde poderemos escrever nosso futuro desde as formas mais sombrias, até o colorido intenso de alegrias inimagináveis.

Daí o nosso nascimento, e a se julgar pelo choro compulsivo com o qual nascemos, pode parecer um prenúncio de sofrimento ou, de acordo com nossas escolhas um aviso de produtividade, esperança, equilíbrio...

Nesse contexto, e diametralmente contra o plágio (trata-se apenas de uma homenagem, invoco um dos maiores gênios brasileiros: - Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho, nosso eterno Chico Anysio:

Eu queria que as pessoas nascessem velhas e morressem crianças.

Pensem bem: o homem quando resolve viver, e quando tem tempo para isso, já está no fim da vida – careca, barrigudo, sem a menor disposição para nada. Por isso é que seria uma boa, o homem nascer velho e morrer criança. Nascia com 80 anos e ia ficando moço até morrer na infância.

“Nascer velho.

As amigas conversando: Nasceu meu filho. Perfeitinho, 80 anos, 75 quilos, 1,80 de altura. E como vai se chamar? Ah, eu tinha escolhido Luís Antônio, mas ele mesmo foi ao cartório e se registrou: Aroldo.

Aí vinha outra: Não está lindo meu filho? Mas, peraí, de calcinha e sutiã? É que eu esperava menina e tal.

E quando chegasse uma visita, a mãe chamaria: Venham ver, hoje ele deu a primeira tossida. “Tosse aí para a moça ver”. Como todo bom velhinho, você nasceria com o direito a ser neurastênico e ranzinza. Nos berçários, filas de cadeiras de balanço com os velhinhos pigarreando sob cuidados de geriatras, se queixando das doenças de recém-nascido.

Mas nada faria mal porque todo mal já estaria feito. Você só iria melhorando a cada dia. Os anos e as semanas caminhariam para trás. Sexta, quinta, quarta, terça, segunda-feira virava sábado. Quer coisa melhor? E se a vida corresse para trás, tudo seria mais fascinante. Acordei com uma ressaca tão grande hoje. Estou imaginando o pileque que eu vou tomar de noite. Se nascesse com 80 anos, você aos 60 casaria. E aí? Uma desvantagem: casava com uma velha.

Mas é preciso não esquecer que com o correr do tempo a sua mulher ia ficando cada dia melhor. Mais moça, até ficar viçosa e se transformar num ‘pancadão’ de mulher aos 20 anos.

E vocês, depois do casamento, ficariam noivos e depois de noivos seriam namorados, até chegar ao amor infantil, puro e desinteressado. O amor de duas crianças apagando das árvores os corações entrelaçados. Você nasceria rico, aposentado e sábio. Na sua profissão você seria um gênio. Ganharia cada vez menos até chegar à faculdade para ir desaprendendo. E ficava mais ingênuo, mais burro e mais puro. No fim da vida, você teria a pureza absoluta. Andar de bicicleta, nadar pelado no rio, trepar em árvores, soltar barquinho de papel nas enxurradas. A bola, a pipa o chiqueirinho, o boneco de pano. Do chiqueirinho para o berço, o chocalho e pararia de chorar.

E com o tempo correndo para trás, a humanidade regrediria dos séculos. Colombo e Cabral, de marcha ré, ‘redescobriram’ o novo mundo. Chegaríamos a ‘desinvenção’ da roda e o desconhecimento do fogo até o último homem, o último primeiro, quando entra um Deus pegando nas mãos, ao invés de soprar, inspiraria o homem outra vez para dentro de si.”

Mas, como isso é só uma utopia, viva bem a sua idade. Não queira parecer muito mais jovem. Isso é ridículo. Todo mundo sabe que você é você. Curta muito seus pais, seus avós, seus filhos, seus netos.

Porque algum dia teremos sempre a mesma idade, a mesma condição financeira os mesmos bens. A gente morre. Ainda bem.

Até a próxima semana.