Galo: Em ano de Copa!
No futebol, meu caro, não existe almoço grátis, missa de corpo presente nem empate moral. O sujeito pode ganhar de 3 a 1, sair do estádio assobiando “Maria, Maria” e ainda assim dormir com um pé no paraíso e outro escorregando no inferno. Foi exatamente isso que aconteceu com o Atlético diante do Mirassol.
O placar foi bonito, daqueles que enganam sogra, cronista otimista e dirigente em fim de mandato. Mas o jogo contou uma história muito mais complicada do que a matemática simplória dos três gols. O Galo mostrou sinais de ressurreição e sintomas de pneumonia ao mesmo tempo.
Bernard, por exemplo, parecia ter encontrado no armário a velha chuteira da Copa do Mundo. Jogou leve, feliz, com aquela alegria nas pernas que o atleticano andava procurando igual criança atrás de pipa no vento. Correu, driblou, apareceu para o jogo e fez o torcedor lembrar que futebol também pode ser poesia, e não apenas boletim de ocorrência.
Rony, porque Minda, convenhamos, nem a mãe dele chama assim, não esteve nos melhores dias, mas resolveu a questão com um golaço. E jogador de ataque é isso mesmo: pode passar oitenta minutos tropeçando na sombra e, no minuto seguinte, virar herói de mesa-redonda.
Na defesa, Lodi e Natanael começam finalmente a dar ao atleticano uma sensação esquecida: segurança. Jogaram bola de gente grande. Sem firula, sem susto desnecessário, sem aquela vocação suicida que a zaga atleticana às vezes demonstra como quem gosta de brincar de roleta-russa.
E apareceu também o menino Cissé, fazendo o gol da redenção. Depois da expulsão infantil contra o Ceará, o rapaz entrou em campo carregando o peso de uma carreta nas costas. Respondeu do jeito certo: bola na rede. O futebol, felizmente, ainda permite absolvição sem precisar passar em cartório.
Mas nem tudo são flores no quintal do Galo. A bola aérea defensiva continua sendo um filme de terror. O gol do Mirassol saiu numa disputa em que Bernard marcava um zagueiro quase vinte centímetros mais alto. Ora, colocar Bernard naquela bola é como mandar um guarda-chuva marcar um poste. O que ele fazia ali talvez nem o GPS do Cuca consiga explicar.
E existe outra fumaça saindo da Cidade do Galo: o vestiário. Ninguém fala claramente, o dirigente desconversa, o jogador dá entrevista sorrindo demais e quando todo mundo sorri demais no futebol é porque alguém já puxou faca no corredor. A diretoria percebeu o cheiro de queimado e trouxe Guilherme Alves para coordenador técnico. Guilherme, aquele mesmo que fazia dupla com Marques e tratava zagueiro adversário como quem invade festa sem convite. O recado é claro: estão tentando devolver identidade ao clube.
No Brasileiro, o Atlético vive uma situação tipicamente brasileira: está a três pontos da zona da Libertadores e também a três pontos do rebaixamento. Traduzindo: o sujeito olha para cima e vê o céu; olha para baixo e encontra o alçapão. E faltam justamente Corinthians e Bahia antes da parada. Uma vitória agora vale mais que três pontos, valem paz, confiança, autoestima e até reconciliação entre jogador e arquibancada.
Na Sul-Americana, o cenário também pode mudar depressa. O Galo encara Cienciano e Academia Puerto Cabello em Belo Horizonte. Se vencer as duas, classifica. Simples assim. E futebol adora essas viradas de roteiro: um time desacreditado ganha duas partidas, a torcida reaparece cantando mais alto, dirigente volta a dar entrevista de peito estufado e jogador que andava escondendo a perna começa subitamente a dar carrinho até em treino recreativo.
Depois vem a pausa do calendário, abre a janela de contratações, aparecem propostas, saídas, reforços, fofocas de empresário e promessas de revolução. E talvez alguns jogadores que andam se poupando por causa das seleções de seus países resolvam finalmente mostrar os dentes.
Né não?
Afonso Canabrava
- Instagram: @afonsocanabrava
Afonso Canabrava nasceu na Rua São Paulo há 5 quadras do campo do Galo, aonde foi criado e aprendeu a nadar, jogar futebol e outras avenças. Foi contemporâneo dos comentários “lesco-lesco” do Kafunga, da presidência de Nelson Campos e de jogadores como Ubaldo, Dario, Reinaldo e tantos outros. Nessa época comemorou o pentacampeonato Mineiro e do Brasileirão. Torcedor contra o vento diante de uma camisa do Galo dependurada no varal, é ferrenho crítico de futebol e todas as suas nuances.
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