O que é Dupla Poda

com Dr Carlos Arruma com Dr Carlos Arruma
Horácio com seu motorhome visitando o Dr. Carlos Arruda e conhecendo o primeiro vinhedo da Dupla Poda. Foto: Arquivo pessoal.

O que é Dupla Poda

Dupla Poda ou ciclo invertido é uma prática no vinhedo que altera o seu ciclo tradicional – amadurecimento e colheita dos cachos de uvas no verão, para o inverno.
Tudo é diferente na Dupla Poda, pois as videiras são plantas cíclicas: se desenvolvem e produzem durante a primavera e verão e pausam seu crescimento durante o inverno e o outono. O surgimento da Dupla Poda quebra este anunciado.

Porque aplicar a Dupla Poda no Sudeste e Centro – oeste do Brasil?

No Brasil, especialmente, na cadeia montanhosa da Serra da Mantiqueira que se estende por Minas, São Paulo e Rio de Janeiro, no verão de dezembro a março chove a cântaros, não negando seu termo de origem tupi-guarani: “Mantiqueira”, “Serra que Chora” ou “Gota de Chuva” – junção de “amana” (chuva) e “tykyra” (gota).

Serra Mantiqueira art 2

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Observe no gráfico que as chuvas na Serra da Mantiqueira estão concentradas no verão, com 1.270 mm de outubro a março. Este elevado patamar de chuvas não é propicio para a obtenção de uvas de alta qualidade, principalmente para as Vitis viníferas. E, no inverno, praticamente não chove de maio a setembro.

A videira na época de madureza de seus cachos de uvas necessita de no máximo 700 mm de chuvas ao ano e não concentrada no seu período de madureza. Ela adora um clima seco (stress hídrico), fator de suma importância para a obtenção de uvas com alto potencial enológico, fator “sine qua non” para a geração de vinhos de alta qualidade. A chuva é um dos grandes vilões para a uva se o foco é a produção de vinhos finos (elaborados com Vitis vinífera). Já para a Vitis Labrusca para vinhos de mesa, uva in natura ou para a elaboração de sucos sua relevância é menor, motivo este que até então a região em torno da cidade de Andradas, no Sul de Minas produzia somente Vinhos de Mesa.

Não adianta ter o melhor enólogo do mundo e equipamentos de vinificação de última geração, se não se tem, em mãos uvas de alto potencial enológico. A pergunta que não queria calar: O que fazer então? Qual seria a mágica? Qual seria a solução para Minas produzir vinhos de alta qualidade?

A dúvida no cérebro do cientista Murillo persistia, porque nenhuma parte do mundo, a teoria, até então vigente, nos livros sobre vinhos, descrevia e continua escrevendo que o cultivo de uvas Vitis vinífera para a produção de Vinhos Finos é ideal nos paralelos 30 a 50 graus no Hemisfério Norte (Estados Unidos, Portugal, Espanha, França, Alemanha, Itália e o resto da Europa até a Grécia) e 30 a 45, no Hemisfério Sul (Chile, Argentina, Uruguai, sul do Brasil, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia). E, Minas Gerais se encontra entre os paralelos 14 a 22, faixa, teoricamente, não ideal para a videira.

paralelo art 2

ciclo vegetativo art 2

A figura mostra, em amarelo, o período de verão no hemisfério norte e no hemisfério sul. Como o Brasil está no hemisfério Sul, a colheita no Rio Grande do Sul e Santa Catarina é realizada no verão, entre janeiro a março. Seria possível colher no inverno, no Sudeste?

Onde, quando e porque tudo mudou

Murillo Albuquerque Regina, pesquisador, no início dos anos 2000, trabalhava na EPAMIG – Empresa Pública de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais, conceituada, localizada em Caldas, Sul de Minas, que realiza pesquisas e desenvolve tecnologias voltadas para a agropecuária e agroindústria, com forte atuação em pesquisas de cafeicultura e vinicultura.

Murillo, passeando pelos cafezais do Sul de Minas, olhava para o “céu de brigadeiro”, alto luminosidade, sem nuvens, sem chuvas, seco, período este de grande movimento nas fazendas repleta de trabalhadores realizando a colheita do melhor café do mundo, no inverno.

Murillo, que fez pós graduação, na Europa entendia e conhecia que um dos fatores importantes para a obtenção de uvas de alta qualidade é uma elevada amplitude térmica (diferença entre a temperatura diurna e noturna), com dias ensolarados (27 graus), e noites de frio ameno, em torno de 10 graus, cenário ideal para um amadurecimento longo das uvas. O inverno de Minas é assim. E, para completar este belo e ideal quadro, as montanhas de Minas apresentam elevada altitude, com vinhedos entre 700 metros a 1.440 metros de altitude, fator que preserva a acidez nos bagos de uvas, durante a sua fase de madureza. Um vinho sem acidez é considerado um vinho “chato”, sem frescor. Tudo isto na cabeça de um gênio pensante e prático, imaginava que estas condições climáticas, no inverno, no Sudeste acarretaria um ciclo de madureza longo das uvas, que possibilitariam a fixação de precursores aromáticos e quem sabe uma ótima madureza dos compostos fenólicos e alto elevado grau de açúcares, nas uvas.

Pensava ele: porque não colher também uvas no inverno?

Murillo necessitava de investidores para testar sua ideia. Um médico, de Poços de Caldas, Dr Marcos Arruda Vieira acreditou e disponibilizou sua fazenda Maria da Fé, em Três Corações/MG.

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Horácio com seu motorhome visitando o Dr. Carlos Arruda e conhecendo o primeiro vinhedo da Dupla Poda. Foto: Arquivo pessoal.

A fase de teste foi longa, com a 1ª safra ocorrendo em 2003. Ampliação do vinhedo em 2004 e finalmente, em 2010 surgiu o primeiro “Vinho de Inverno” do mundo: o Primeira Estrada Real Syrah – um marco divisor na história do vinho brasileiro de alta qualidade.

Professor Horácio Barros

  • Professor Horácio Barros é engenheiro siderúrgico, especialista em vinhos e fundador da Escola Itinerante de Vinhos. Referência nacional em Vinhos de Inverno e na técnica da Dupla Poda, é autor do e-book Minhas Aventuras pela Dupla Poda e colunista do Balcão News.
  • Conheça mais o trabalho do professor Horácio acessando o site: www.wineworldadventure.com e o instagram: @wineworldadventure ou adquira seu e-book pelo link: https://pay.hotmart.com/O100247201M

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