Como alterar o ciclo da videira para colher no inverno

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Foto: Arquivo pessoal.

Como alterar o ciclo da videira para colher no inverno

No artigo da semana passada vimos o que é a técnica da Dupla Poda e os motivos que conduziram a introduzir esta novidade no Sul de Minas.

Relembrando, a justificativa, para a introdução da Dupla Poda no Sul de Minas, tem relação com as condições climáticas desfavoráveis durante o verão (janeiro a março) em um quadro de regime elevado de chuvas, sem parar, especialmente na Serra da Mantiqueira, que impedem a geração de uvas Vitis vinifera de qualidade.

A ideia foi alterar o período de madureza e colheita das uvas do verão para o inverno, que raramente chove de abril a agosto – clima extremamente seco, que a videira adora.

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Esta prática viabilizou a produção de vinhos de alta qualidade no Sudeste e Centro-oeste do Brasil, que passaram a ser chamados de Vinhos de Inverno.

Esta estratégia foi possível de ser adotada nesta região, devido as condições climáticas favoráveis, durante um inverno menos rigoroso se comparado ao Sul do Brasil e da Europa, muito frio, com temperaturas mínimas próximas de zero graus e neve, quando a videira hiberna.

Já, no Sudeste do Brasil, as temperaturas mínimas, no inverno, não são extremas, em torno de 8 graus ao anoitecer e 28 graus durante o dia. Consequentemente, com a Dupla Poda, ela não hiberna, dá uma dormidinha.

Após o lançamento e sucesso do primeiro Vinho de Inverno, o Primeira Estrada Syrah, alguns fazendeiros iniciaram a implantação de vinhedos, no Sul de Minas.
Complementando este quadro climático, de pouca chuva que cria um stress hídrico, para a videira “sofrer” e buscar nutrientes com sua raiz profunda e apoiado pelo alto índice de luminosidade (sem nuvens), no inverno criam um ambiente de elevada soma térmica que favorecem o amadurecimento lento dos cachos de uvas e menor incidência de doenças fúngicas, Este quadro é completado com a elevada altitude dos vinhedos, entre 700 a 1400 metros, que ajuda a preserva a acidez, mesmo considerando o elevado teor de açucares obtidos das uvas, durante a colheita no inverno. A colheita no inverno permite uma fácil obtenção de elevado grau Brix (índice de açúcar nas bagas das uvas) atingindo com facilidade 24 a 25 grau Brix, podendo atingir valores superiores se ocorrer uma sobrematuração.

Isto conduz a uma tendência de apresentar ao mercado: vinhos tintos de inverno com elevado teor alcoólico, acima de 14 graus. O degustador menos avisado ou menos atendo não percebe este elevado teor alcoólico, pois os vinhos, em sua maioria, são equilibrados, suportado pela acidez não degradável durante a lenta fase de maturação das uvas – tendência de baixo índice de ácido málico que se elevado pode causar agressividade na boca ao degustar.

Geralmente, o ciclo de madureza das uvas no inverno é mais longo do que quando realizada no verão.

A teoria do mundo do vinho preconiza que durante a madureza das uvas o clima ideal é de pouca chuva para que ela possa amadurecer com propriedade e com elevado potencial enológico, apresentando no dia da colheita elevada concentração de açúcares (teor grau Brix), com as tintas atingindo patamares superiores a 24 de Brix e uma madureza completa dos compostos fenólicos, principalmente, Antocianos, responsáveis pela coloração vermelha dos vinhos tintos e dos Taninos que gerarão vinhos macios, aveludados, na boca, sem sensação verde (banana verde – não muito madura). Isto conduz, em sua maioria de tintos de cor vermelha com elevada intensidade. Gosto de comentar em minhas degustações: vinho quase negro, guloso, de mastigar.

Vejamos, estão como é esta técnica:

A técnica da Dupla Poda, como o próprio nome indica, parte do princípio da necessidade de realizar duas podas, durante o ciclo anual, objetivando enganar a videira para ela não colher no verão chuvoso.

Estas duas podas são denominadas de: Poda de Formação e Poda de Produção, que são realizadas em períodos diferentes e com finalidades diferentes.

A PODA DE FORMAÇÃO

A colheita de uvas no inverno, ocorre no final do mês de julho.
Em seguida, cerca de 30 dias, em agosto, é realizada a Poda de Formação – uma poda curta (drástica), que consiste cortar os galhos verticais em sua base zero, como mostrado na figura, deixando apenas esporões com uma gema.

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Foto: Arquivo pessoal.

Esta poda tem como objetivo deixar a planta desenvolver vegetativamente, com força. É um passo crucial, responsável por estruturar a videira de maneira a otimizar seu desenvolvimento e frutificação ao longo do ciclo anual.

Poda de Formacao
Foto: Arquivo pessoal.

Depois de cerca de 15 dias, após a Poda de Formação, começam a surgir algumas folhas e os ramos verticais com a folhagem, iniciam sua subida rumo ao último fio de arame de sustentação da videira. Alguns cachos de uvas que surgem são retirados imediatamente, pois o objetivo não é colher no verão, mas no inverno. A videira foi enganada.

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Foto: Arquivo pessoal.
A fase vegetativa continua por longo período, chegando até janeiro ou fevereiro, quando será realizada a Poda de Produção.

A PODA DE PRODUÇÃO

A segunda poda é denominada de: Poda de Produção, realizada entre janeiro ou fevereiro, com a finalidade de preparar a planta para a safra seguinte, que acontecerá no inverno. É retirado toda a folhagem e é realizada a poda de todos os galhos verticais, mas em posição diferente, àquela realizada durante a Poda de Formação.

Esta poda é diferente da Poda de Formação. A Poda de produção corta cada ramo vertical, geralmente, na 3ª gema.

Poda de Producao
Foto: Arquivo pessoal.

Final de março ou início de abril a videira que foi enganada recomeça a sua floração, surgem os cachinhos de uvas que começam a crescer, aumentando o diâmetro de cada baga, a partir de abril inicia a fase de amadurecimento das uvas – dia do Pintor (*).

A Colheira no inverno

(*) Dia do Pintor: é quando surgem os primeiros bagos de uva com uma coloração vermelha, no caso das uvas tintas e no caso das brancas, um verde menos intenso, puxando para o amarelo claro. A fase do Pintor marca o início da fase de maturação das uvas tintas.

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Foto: Arquivo pessoal.

Elas “pintam” – a cor rosada, puxada para um azul surge em alguns bagos – os bagos aumentam de volume, sua película torna-se um pouquinho mais elástica e o cacho começa a perder seu aspecto herbáceo, sendo que os bagos mais expostos ao sol mudam de cor, primeiro, seguido pelos bagos mais à sombra. Durante a fase de maturação, as uvas vão acumulando e perdendo um pouco a acidez e em paralelo aumentando o teor de açúcar, na polpa.

O amadurecimento do cacho continua, e são colhidos no final de julho ou agosto dependendo da região que foi praticada a Dupla Poda, bem como da data que foi realizada a Poda de Formação e a Poda de Produção.

Curiosidade: É necessário a instalação de uma rede dupla envolvendo os cachos que se encontram na fase de amadurecimento para proteger do ataque de pássaros ou outros predadores.

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Foto: Arquivo pessoal.

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Professor Horácio Barros

  • Professor Horácio Barros é engenheiro siderúrgico, especialista em vinhos e fundador da Escola Itinerante de Vinhos. Referência nacional em Vinhos de Inverno e na técnica da Dupla Poda, é autor do e-book Minhas Aventuras pela Dupla Poda e colunista do Balcão News.
  • Conheça mais o trabalho do professor Horácio acessando o site: www.wineworldadventure.com e o instagram: @wineworldadventure ou adquira seu e-book pelo link: https://pay.hotmart.com/O100247201M

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O que é Dupla Poda – Professor Horácio Barros

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