Galo: situação mais que atual!
O Galo anda vivendo daqueles romances de rádio antigo: muito grito, pouca lógica e um sujeito sempre correndo atrás do bonde já saindo da estação. Quando parecia que o time pisaria na casca definitiva da banana, eis que surge o Ceará, a classificação no desespero e a velha instituição atleticana reaparece: o sofrimento transformado em patrimônio cultural de Minas Gerais.
Porque o atleticano, convenhamos, não gosta de tranquilidade. Desconfia dela. Se o time ganha fácil, já acha que vem tragédia na esquina. O Galo só é compreendido plenamente quando a classificação depende de um escanteio aos 48 do segundo tempo, um zagueiro trombando no próprio goleiro e um santo qualquer fazendo plantão na trave.
Mas a verdade é que, olhando friamente, o cenário atual não seria exatamente uma pintura renascentista. O time ainda manca no meio-campo como sujeito saindo de churrasco depois de oito horas em pé. Falta articulação, falta criatividade e, em muitos momentos, falta alguém que pegue a bola e diga: “deixa comigo que eu sei o caminho”. Hoje, o meio do Galo parece fila de repartição pública: ninguém anda e todo mundo entrega para o companheiro ao lado.
Só que aí entra a Copa do Mundo, que vai interromper tudo e talvez venha a ser a “salvação da pátria”. Porque o tempo, no futebol, às vezes vale mais que um centroavante caro.
Na volta, o clube deverá reaparecer com outra cara. Primeiro, pela chegada de Guilherme Alves como diretor técnico, homem incumbido da missão mais difícil do futebol moderno: harmonizar vestiário de jogador milionário. Trabalho mais complicado que montar cubo mágico dentro de um elevador em movimento.
Depois, existe a promessa de Rubens Menin de reorganizar a questão financeira e aliviar a paulada anual de mais de 220 milhões de juros bancários. Número tão absurdo que, se fosse folha salarial da década de 70, dava para contratar meio campeonato brasileiro e ainda sobrava dinheiro para reforma do Mineirão.
Além disso, a tendência é que vários jogadores que hoje apenas ocupam espaço no elenco acabem saindo. E sejamos francos: tem atleta no Galo que anda participando mais da folha de pagamento do que das partidas. O clube precisa emagrecer a conta e engordar o futebol.
E aí está talvez o ponto central: a reconstrução do meio-campo. Porque sem meio-campo não existe time campeão, existe apenas correria organizada. O futebol continua sendo decidido ali, naquele pedaço de gramado onde nasce a inteligência da equipe. O Atlético atual, em muitos jogos, parece um piano sem teclas centrais: faz barulho, mas falta melodia.
Agora! Contra o Cienciano, o torcedor viu algo raro nos últimos tempos: um time com ideias. A imprensa destacou exatamente isso. Não foi apenas a vitória; foi a atuação segura, dominante e, principalmente, coerente. O Galo controlou o jogo, criou oportunidades, pressionou sem desespero e deu sinais de organização ofensiva, coisa que vinha aparecendo apenas em prestações, como carnê atrasado.
Cuello foi agressivo e vertical; Lodi apareceu com personalidade; Bernard jogou talvez sua melhor partida desde o retorno, leve e participativo; e Cassierra mostrou aquilo que o centroavante precisa mostrar: presença de área e fome de gol. Pela primeira vez em muito tempo, o atleticano saiu de um jogo sem precisar consultar a tabela de matemática financeira para saber se ainda havia esperança.
E o calendário agora vem daquele jeito que o futebol brasileiro gosta: sem carinho e sem intervalo. Corinthians e Vasco pelo Brasileiro, depois o apc pela Sul-Americana no caldeirão da Arena. Jogos pesados, de camisa, de cobrança e de nervosismo.
Mas o curioso é que o Atlético chega para essa pausa numa situação paradoxal: ainda cheio de defeitos, porém muito mais vivo do que parecia semanas atrás.
O torcedor do Galo conhece esse filme. Quando todo mundo decreta o enterro, o clube arruma um jeito de levantar da maca, ajeitar o cabelo e voltar para a briga. Porque o Atlético, no fundo, é isso: um estado permanente de combustão emocional.
E talvez seja justamente aí que more o perigo para os adversários depois da Copa.
Né não?
Afonso Canabrava
- Instagram: @afonsocanabrava
Afonso Canabrava nasceu na Rua São Paulo há 5 quadras do campo do Galo, aonde foi criado e aprendeu a nadar, jogar futebol e outras avenças. Foi contemporâneo dos comentários “lesco-lesco” do Kafunga, da presidência de Nelson Campos e de jogadores como Ubaldo, Dario, Reinaldo e tantos outros. Nessa época comemorou o pentacampeonato Mineiro e do Brasileirão. Torcedor contra o vento diante de uma camisa do Galo dependurada no varal, é ferrenho crítico de futebol e todas as suas nuances.
- As opiniões contidas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do portal Balcão News.
Leia também:

