As uvas da Dupla Poda

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Castas emblemáticas da Dupla Poda. Fotos: Arquivo pessoal.

As uvas da Dupla Poda

Tudo muito recente, tudo muito novo – a prática da Dupla Poda ou Poda Invertida que conduz a colheita para o inverno, no Sudeste e Centro-oeste, atingiu sua maioridade, 24 anos. A videira mais velha da Dupla Poda se encontra na Fazenda da Fé, em Três Corações, Sul de Minas de propriedade de Marcos Arruda, conceituado médico de Poços de Caldas que acreditou na ideia do pesquisador da EPAMIG, Murillo Albuquerque Regina, responsável pela implantação desta novidade internacional. Nesta localidade, inicial a saga do primeiro Vinho da Dupla Poda, o Primeira Estrada Syrah. Atualmente, as uvas deste vinhedo são enviadas para a vinícola Estrada Real, de propriedade de Murillo e outros sócios.

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Foto: Arquivo pessoal.

A videira mais velha da Dupla Poda, vinhedo na Fazenda Maria da Fé, em Três Corações, Sul de Minas. Ela já apresenta troncos e braços com elevado diâmetro, superior as videiras mais jovens.

A 1ª onda da Dupla Poda

Nos primeiros anos, na fase de teste, a Syrah e a Sauvignon Blanc surgiram em quase todos os novos projetos da Dupla Poda, em virtude do fato de que no início deste processo, ambas mostraram boa adaptabilidade à prática da Dupla Poda. Uma linha correta, cientificamente falando, pois o risco de algo dar errado, em tentar outra cultivar, enquanto se realizavam as primeiras pesquisas e testes seria grande. No início, os testes foram desafiadores, uma ousadia, pois nenhum país ou região amadurecem e colhem as uvas no inverno.

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Após o sucesso da implantação da Syrah e da alta qualidade apresentada pelo primeiro vinho da Dupla Poda, o Primeira Estrada Syrah, começaram a surgir novos vinhedos e novos cultivares (tipos de uvas), nas fazendas no Sul de Minas, em Cordislândia, Três Pontas/Boa Esperança e Andradas. A maioria dos primeiros vinhos de inverno foram elaborados na EPAMIG, em Caldas pela enóloga Isabela Pelegrino, que trabalhava neste centro de pesquisa. Atualmente ela comanda a enologia da vinícola Estrada Real, em Caldas. Esta vinícola deu o pontapé para a terceirização – elaborar vinhos para aqueles investidores que implantaram somente vinhedos e não investiram na compra de equipamentos de vinificação.

O enólogo chileno Christian Sepúlveda, foi o responsável em apresentar vinhos de alta gama, na vinícola Guaspari, em Espírito Santo do Pinhal, SP. Atualmente, ela é uma referência quando se fala de vinhos de inverno e sua nova vinícola, Terra Nossa também presta serviço de vinificação de vinhos para terceiros (quem tem somente o vinhedo).

As ondas da Dupla Poda

Cronologicamente falando, a implantação da Dupla Poda, em 2002 não pode ser considerado uma antecipação da 1ª onda, pois não se sabia se seria possível concretizar esta aventura. Foi um lance de sorte.

Murillo não escolheu a Syrah. Ela veio de presente no pacote de cerca de 300 mudas que seu professor francês, enviou. Pura sorte. Talvez se a Syrah também não vingasse, não teríamos a Dupla Poda.

E, na 1ª experiência na fazenda da Fé, em Três Corações, somente ela vingou. A partir deste sucesso, os fazendeiros de café escolheram a Syrah para iniciar suas pesquisas em diversas áreas de Minas Gerais. Foi a 1ª onda da Dupla Poda.

Como, no início, algumas castas não apresentaram bom rendimento (kg de uva/planta), os novos empresários, empreendedores, seguiram o caminho mais seguro, cultivando a Syrah e a Sauvignon Blanc.

Castas emblematicas da Dupla Poda

As primeiras experiências, com a Dupla Poda, mostraram que este tipo de manejo do vinhedo afeta a produtividade e o vigor dos vinhedos e algumas castas, ainda na 1ª onda, mostraram baixa produtividade como a Chardonnay e a Merlot. Além, é de suma importância a escolha correta dos porta-enxertos para cada variedade, cujas pesquisas continuam sendo elaboradas pela EPAMIG.

A conclusão, inicial, foi de que as cultivares necessitam ser “forte” ou “vigorosa” e ter um porta-enxerto vigoroso, para conseguir ser produtiva, no inverno e a uma certa agressividade com a dupla poda e o regime de stress hídrico de colher no inverno.

A EPAMIG – Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais teve um papel preponderante realizando pesquisas e experimentos para ampliar as opções de variedades de uva para a produção de vinhos finos de inverno sob o manejo de dupla poda, o que chamo da 2ª onda da Dupla Poda, para efeito didático.

As pesquisas e estudos, e a ousadia dos novos empresários do vinho, muitos deles sem experiência no campo, oriundos do mercado financeiro ou de outra atividade industrial, partiram para testes ousados, experiências e muitas já estão mostrando que a Dupla Poda não é só Syrah e Sauvignon Blanc.

A 2ª onda da Dupla Poda

Eu, como degustador profissional tenho acompanhado e degustado a maioria dos Vinhos de Inverno que estão surgindo desde as primeiras castas e até mesmo as novas que foram implantadas, recentemente.

No início os varietais de Syrah e Sauvignon Blanc.

Novos cultivares surgirão para oferecer um leque maior de rótulos para os consumidores.

Depois do sucesso da Syrah a progenitora, a emblemática tinta da Dupla Poda, em minha visão considero a Cabernet Franc a princesa, com excelentes exemplares, em quase todas as regiões, com destaque para o estado do Rio, sem menosprezar o resto do que também estão elaborando excelentes varietais com esta casta.

Grandes Cabernet Franc estão surgindo, na Dupla Poda. Destaco o Parcela Cabernet Franc/Cabernet Franc da Família Eloy (Borgo del Vino), Areal, RJ.
A terceira tinta, mais importante, aposto na Marselan. Fiquem de olho no varietal Marselan, da Tassinari, RJ.

A Tempranillo, emblemática da Espanha. O Tempranillo da Stella Valentino, de Andradas, é a referência, excelente.

A Malbec, está aumentando sua área, na Dupla Poda, mas não lembra em quase nada, os grandes Malbecs da Argentina.

Minha outra aposta é a Cabernet Sauvignon. Ela vai dar o que falar quando as videiras estiverem mais velhas. Ela é uma casta tardia que necessita de longo tempo de maturação – a prática da Dupla Poda conduz a um ciclo de madureza mais longo do que no tradicional (colheita de verão). Fiquem de olho no Mantis da Casa Geraldo e nos nobres da Haras de Mascan, em Baependi.

O sucesso da Cabernet Sauvignon, na Dupla Poda é importante para a produção do corte bordalês – ainda temos poucos rótulos, pois ela está sendo cultivada em poucas áreas. Idem para a Merlot, as duas castas básicas do corte bordalês. O Liberdade da Casa Geraldo já é um grande exemplo.

O varietal Petit Verdot da vinícola Góes, em São Roque, São Paulo, impressiona pela sua maciez na boca – uma casta sempre difícil de dominar seus taninos. Mas, na Dupla Poda, geralmente se consegue excepcional madureza fenólica. Produtores: vamos arriscar e plantar mais Petit Verdot.

A Sangiovese, emblemática da Toscana encontrou seu berço, no interior de São Paulo, entre Cravinhos, Ribeirão Preto e Ituverava. Nestas localidades até a difícil e caprichosa Nebbiolo está mostrando que talvez fora do Piemonte ela vai encontrar uma área no sudeste e surgir o primeiro Barolo da Dupla Poda.

Quando surgirá o primeiro GSM da Dupla Poda?

GSM é o famoso corte do Rhône e da Austrália – “assemblage” de Grenache, Syrah e Mourvèdre.

Serafino

Se, o corte GSM não sair na 3ª onda da Dupla Poda, “conto um causo”, como dizem os mineiros.

Vamos ao “causo”: durante minha visita aos vinhedos da Lattarine, em Santo Antônio do Jardim, próximo a Espírito Santo do Pinhal, SP, Márcio Lattarine comentou que a Grenache está indo muito bem, lá, mas ele não tem a Mourvèdre, completou ele dando uma ideia: “porque não fazer um corte GTS – Com assim, perguntei? Um corte de Grenache, Syrah e Tannat. Boa ideia completei. Aguardo a primeira garrafa para degustar.

Aos produtores de vinhos de Inverno aconselho a criar este corte GSM pois considero uma boa jogada de marketing. Vamos plantar mais Mourvèdre? Será que algum vinhedo vai conseguiu cultivar esta casta com a Dupla Poda, com rendimento comercial viável?

Outro causo: Visitando a vinícola Bonventi, localizada na área rural de Espírito Santo do Pinhal, SP, na Bonventi me apresentaram o corte GSM. Como assim? Fiquei surpreso. O sommelier falou: “Este é o primeiro GSM, da Dupla Poda, com um sorriso maroto, sarcástico. Desconfiei.

Era um corte de Grenache, Syrah e Marselan. Isto não vale, mas valeu a brincadeira.

A italiana Barbera escolheu o seu berço, em Goiás. O melhor é da Pirineus, Cocalzinho de Goiás.

Castas brancas da Dupla Poda

A presença da Viognier, nos vinhedos do Sudeste e Centro-Oeste é de grande importância, apesar de sua baixa produtividade, quando se utiliza a Dupla Poda. Seu cultivo, na Dupla Poda permite imitar o corte clássico – os Côte-Rotie do norte do Rhône, França, onde muitos tintos de Syrah entram na composição, com pequeno percentual de casta branca, a Viognier (legislação: máximo 20%). Algumas vinícolas já estão fazendo isto. Por outro lado, ela gera excelentes varietais. Já se pode considerar que está será a segunda casta branca mais importante da Dupla Poda.

Abra seus olhos no excelente Viognier da vinícola Casa Geraldo e no excepcional da L’Origene. Até mesmo um Vinho Laranja, com esta casta, o excelente Quinta do Canário, de Passos, Sul de Minas.

A terceira branca, acredito que será a Chenin Blanc. Mas a Marsanne e a Vermentino também podem brilhar, junto com a Muscat Petit Grain Blanc.

Até a Alvarinho, casta emblemática do Minho, norte de Portugal, está sendo testada em alguns vinhedos. Me parece que ainda não surgiu o primeiro vinho com esta casta, nos vinhedos da Dupla Poda.

Castas Brancas

A 3ª onda da Dupla Poda

Estou esperando-a, com ansiedade. Ela passa por cerca de 40 cultivares portuguesas e italianas que estão em fase de testes no campo, nos vinhedos da Lattarine, Santo Antônio do Jardim, São Paulo. Um belo trabalho do professor pardal, Marcio Lattarine.

Que venham estas castas portuguesas: Touriga Nacional, Touriga Franc, Trincadeira, Afrocheiro, Castelão, Tinta Barroca e Tinto Cão.

Que venham as italianas: Sangiovese, Aglianico, Ancellota, Nebbiolo, Refosco dal Peduncolo Rosso, Rebo, Rondinella, Barbera, Giliegiolo, Dolceto, Freisa, Corvina Veronese, Grignolino, Sagrantino, Pinot Nero.

Algumas castas não vão bem na Dupla Poda

Que pena: a emblemática chilena, Carménère, não “pegou” na Dupla Poda. O Chile não necessita preocupar. Sorte dos chilenos.

Mas, em compensação a emblemática da Argentina, a Malbec está indo muito bem, mas sem a expressão magnifica da terra de Maradona. Não parece um Malbec, propriamente dito.

Que pena, a Chardonnay, rainha entre as brancas não se adaptou muito bem com a Dupla Poda. Em poucas áreas ela está indo bem. Por exemplo, a vinícola Guaspari, que degustei há muitos anos, retirou o seu vinhedo e passou a cultivar em outra área mais elevada, pois o seu baixo rendimento não compensava comercialmente.

Que pena, a Chardonnay está com dificuldades na Dupla Poda. Temos que esperar mais alguns anos para averiguar como ela comportará quando as videiras estiverem um pouco mais velhinha, pois ela costuma perder rapidamente sua produção anual, a partir do terceiro ano, tornando-se desinteressante, financeiramente falando. Quando iniciei minhas viagens pela Dupla Poda, aliás, o título do ebook, estive visitando a famosa Guaspari, Espirito Santo do Pinhal, SP e degustei um Chardonnay excepcional. Voltando, lá, recentemente, fui informado que o vinhedo foi retirado, devido a pouca produção e nova área. Vamos aguardar cerca de 3 anos para analisar o resultado.

Em virtude deste fato, a Chardonnay está sendo cultivada, principalmente, no Sul de Minas, no regime de Colheita de Verão, tanto para a elaboração de varietais, bem como para espumantes.

A Merlot também não está arrancando bem, exceto em algumas áreas, mas o estudo de porta-enxertos mais vigorosos é uma das alternativas avaliadas para aumentar a produtividade desta cultivar. Ainda bem, que a Merlot é a casta emblemática da Serra Gaúcha. Que belos Merlot, lá, surgem, especialmente no Vale dos Vinhedos, Rio Grande do Sul.

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Professor Horácio Barros

  • Professor Horácio Barros é engenheiro siderúrgico, especialista em vinhos e fundador da Escola Itinerante de Vinhos. Referência nacional em Vinhos de Inverno e na técnica da Dupla Poda, é autor do e-book Minhas Aventuras pela Dupla Poda e colunista do Balcão News.

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Leia também os outros artigos publicados semanalmente:

Artigo 01: Como conheci a Dupla Poda

Artigo 02: O que é Dupla Poda

Artigo 03: Como alterar o ciclo da videira para colher no inverno

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