A Expansão da Dupla Poda – Os primeiros vinhedos

A expancao da Dupla Poda A expancao da Dupla Poda
A expansão da Dupla Poda. Foto: Arquivo pessoal/Horácio Barros.

A Expansão da Dupla Poda – Os primeiros vinhedos

Tudo começou em 2002, com a implantação de um vinhedo, na Fazenda da Fé, na área rural da cidade mineira de Três Corações, terra do Pelé, visando testar a viabilidade técnica de amadurecer e colher uvas, no inverno, fato inédito no mundo, que sempre colhem no verão, tanto no hemisfério norte (Estados Unidos e Europa) e no hemisfério Sul (Chile, Argentina, Uruguai, sul do Brasil, África, Austrália e Nova Zelândia.

Tres Corcoes

Estes estudos foram comandados pela equipe de técnicos e pesquisadores da EPAMIG, baseado na ideia do pesquisador Murillo Albuquerque Regina, funcionário desta instituição do governo de Minas.

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Até então, a Dupla Poda era usada em casos esporádicos em Vitis labrusca ou Vitis americana. Murillo acreditava nesta ideia, pois olhava para o céu de inverno, do Sul de Minas, onde os cafezais amadurecem seus frutos, no inverno. Um céu de brigadeiro, com elevada amplitude térmica, com dias de calor ameno, 28 graus e noites frias em torno de 10 graus e o mais importante: zero de chuvas, um ambiente que a videira tem condições de expressar de maneira divina, ainda mais apoiado pela altitude entre 800 a 1.400 metros da Serra da Mantiqueira, que abraça os estados de Minas, São Paulo e parte do Rio de Janeiro.

Motorhome do Horacio Barros

Acompanhei de perto este novo movimento, viajando com o meu motorhome, que teve a felicidade de dar uma volta ao mundo, visitando os 24 principais países produtores de vinhos do mundo, durante 2 anos e 3 meses, projeto Wine World Adventure. O “slogan” de meu projeto é sintetizado pela frase curta: “O melhor desta aventura, é você quem vai degustar”. É você quem vai degustar acompanhando os artigos desta coluna semanal do Balcão News.

Em 2010, surgiu o primeiro vinho comercial, o Primeira Estrada Syrah, da vinícola Estrada Real, fundada pelo pai da Dupla Poda, Murillo Albuquerque Regina. O sucesso deste vinho lançado no mercado, em 2013, assombrou a mídia pela alta qualidade e incentivou os primeiros investimentos de vinhedos, na Serra da Mantiqueira, no Sul de Minas, nas fazendas de cafezais, em Cordislândia – vinícola Luiz Porto, de propriedade de Junior.

A canção Maria, Maria de Milton Nascimento, nascido em Três Pontas, foi o nome que inspirou o produtor de café Eduardo Junqueira Nogueira a criar sua vinícola entre os municípios de Três Pontas e Boa Esperança, terra de um dos principais pianistas de sua geração, Nelson Freire. Formou-se uma rota de vinhos e arte, completada por Wagner Tiso, arranjador e compositor de formação erudita. A rota de vinhos e arte segue com a música: “Tá todo mundo louco” de autoria do meu amigo de infância: Silvio Brito, nascido também em Três Pontas e grande parte de sua infância, em Varginha, terra de Murillo Regina, o pai da Dupla Poda e de minha cidade Natal. Neste rincão, recentemente o Maria Maria Isabela Syrah ganhou a medalha de ouro com 96 pontos (vinho excepcional) no Decanter World Wine Awards – o vinho brasileiro com a mais alta pontuação da história desta premiação. Fato curioso do nome de Isabela, passa pela ideia de Eduardo de nomear os seus vinhos com nomes femininos, buscando na família, nomes de mulheres desde a 1ª safra, começado pela letra A e seguindo as letras do alfabeto, cuja minha memória ainda estão os das safras Eva, Gizi, Julia. Ao chegar na letra I. A regra de escolha de nome de mulheres da família foi quebrada para uma homenagem a 1ª enóloga da Dupla Poda, Isabela Pelegrino, que naquela oportunidade trabalhava, junto com o Murillo, na Epamig. Ela, atualmente é responsável por comandar a enologia da vinícola Estrada Real, implantada em Caldas pelo Murillo com o objetivo de produzir seus vinhos das uvas de Três Corações e prestar serviços de vinificação para os vinhedos que começaram a surgir, cujos proprietários não desejavam instalar uma vinícola. Esta proposta ajudou a alavancar novas propriedades.

Isabela, atualmente, já perdeu a conta de quantos rótulos ela elabora. Parabéns, rainha da Dupla Poda.

A rota continua para a capital do vinho do Sul de Minas, Andradas, onde, o engenheiro agrônomo José Procópio, até então produtor de Vinhos de Mesa, elaborados a partir da Vitis labrusca ou Americana, abraçou a prática da Dupla Poda implantando vinhedos Vitis viífera. Seus vinhos também assombraram o mercado, principalmente seu Tempranillo.

Falar em rainha da Dupla Poda, sugiro nomear o príncipe da Dupla Poda: Christian Sepúlveda, um jovem enólogo, chileno, um craque, com um estilo próprio de elaborar Vinhos de Inverno, que começou sua carreira elaborando os fantásticos vinhos da Guaspari, na cidade de Espírito Santo do Pinhal, na Serra dos Encontros, ao atravessar a fronteira de Minas para São Paulo. Considero a vinícola “benchmark” da Dupla Poda, com um portfólio de impressionar os degustadores nacionais e internacionais, comandado pelo empresário Paulo Brito.

Pertinho, da fronteira com Minas, surgiu, no início da Dupla Poda, a Casa Verrone, em Itobi, SP de propriedade de Márcio Verrone, com vinhos de alta qualidade.

Em 2005, em Cocalzinho de Goiás, surgiu o primeiro vinhedo deste estado, implantado pelo médico Marcelo de Souza, que gerou o excepcional: Intrépido Syrah – vinícola Pirineus, que tive a oportunidade rara de fazer uma degustação vertical.

A partir destes novos vinhedos, iniciou-se uma expansão vertiginosa da quantidade de novos projetos, pelos estados de Minas, São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás e Distrito Federal.

Atngiu o estado de Mato Grosso, com dois projetos e Mucugê e Morro do Chapéu, no coração da Bahia.

Enquanto o mundo está observando uma tendência de queda da área de vinhedos, que apresentou seu recorde de 7,823 milhões de hectares, visto em 1995 para os atuais 7,096 milhões, a Dupla Poda apresentou um crescimento a partir de 2020 de 25% ao ano, atingindo entre 1.300 a 1.500 hectares. Este número, se comparado é pequeno, mas o rítimo de crescimento é acelarado, sem projeção de numeros futuros, pois ainda é necessário ver como esta nova vitivinicultura de amadurecimento das uvas no inverno vai continuar apresentado elevados índices anuais de forte crescimento ou se estabilizará.

Meu motorhome chegou a Areal, a capital do vinho do estado do Rio de Janeiro, na região Serrana para conhecer primeiro projeto da Dupla Poda, neste estado, implantado pelo incansável José Claudio Aranha, que desistiu de investir em café para implantar o primeiro vinhedo, com a prática da Dupla Poda.

Seu sucesso encorajou aos empresários cariocas a “arriscar”, na Dupla Poda. Arriscar, porque ninguém imaginaria que a Serra Fluminense poderia gerar vinhos de alta qualidade.

Degustei os vinhos da Tassinari, Terras Frias, Fattoria Vinhas Altas e Borgo del Vino, em sua maioria todos de excelente qualidade.

Recentemente foi inaugurado o mega projeto da Maturano, que breve vou degustar seus primeiros vinhos que surgiram, recentemente.

Meu motorhome chegou até a capital do Brasil, onde 10 empresários implantaram vinhedos em suas fazendas para fornecer uvas para a vinícola Brasília.

Antes, da Dupla Poda chegar em Brasília, vários vinhedos surgiram nas áreas rurais de Goiás em torno de Pirenópolis, Cocalzinho de Goiás e Rianápolis, com destaque para as vinícolas Assunção, Pirineus, Quartetto, Girassol, Monte Castelo, São Patrício e outras.

A partir do Sul de Minas, a expansão continuou pelas várias regiões de Minas, surgindo grande quantidade de vinhedos e vinícolas que estão fomentando o enoturismo, criando novas regiões vinícolas: Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, com destaque: Arpuro, em Uberaba, Alma Rios e Casa Bruxel, em Patos de Minas. Nas proximidades de Sacramento, o vinhedo Sacramento’s Vinifer tem angariado excelentes notas do guia de Vinhos Descorchados.

Diamantina que há séculos produzia vinhos de verão, abraçou a Dupla Poda, com destaque para os projetos da Quinta da Matriculada.

Na Zona da Mata, destaque para Garcia de Paula, em Lima Duarte e Alto do Gavião, em Vieiras.

Nas proximidades de Tiradentes, na região de Campo das Vertentes, destaco a Alma Gerais, em Bonsucesso, Cave das Vertentes, em Santo Antônio do Amparo e o vinhedo da Mil Vidas, em Rianápolis. Em Tiradentes a Luiz Porto, com vinhedo em Cordislândia e em Bichinho o vinhedo da Trindade, com uma vista panorâmica de 360 graus, imperdível.

Quantidade de vinhedos
Em 20 anos surgiram 242 vinhedos, um ritmo de crescimento vertiginoso, inimaginável, no mundo.

(*) Estes dados são de 2024. Não são oficiais, pois ainda não tem um órgão específico para captar e divulgar as estatísticas da Dupla Poda. Nesta minha pesquiza não entram as vinícolas que colhem uvas no verão e nem aquelas que elaboram Vinhos de Mesa. Pode-se estimar valores cerca de 20% dos indicados na figura. Atualmente, a Dupla Poda está sendo praticada entre 270 a 280 propriedades.

Acreditem ou não, mas a Dupla Poda chegou perto da Capital de Minas, na zona do Quadrilátero Ferrífero, com destaque para Quinta de Glaura, próxima de Ouro Prêto e Terra Rubra, Itabira, terra do poeta, contista e cronista, o imortal: Carlos Drumond de Andrade.

São Paulo acompanha Minas, com implantação de grande quantidade de vinhedos, nas áreas rurais de Campinas, Ribeirão Preto, Ituverava, Franca, Campos do Jordão, Jundiaí.

As regiões vinícolas tradicionais com o cultivo de uvas de verão e de uvas Vitis labrucas, como Jundiaí e São Roque, abraçaram a Dupla Poda e continuaram também produzindo Vinhos de Mesa (importante fatia do mercado de vinhos).

Entre as gigantes deste setor, em São Paulo, destaco a vinícola Goes, cujos Vinhos de Inverno já estão no mercado e com elevada qualidade. Atualmente, ela já está, inclusive, vinificando para terceiros, para aqueles investidores que implantaram seus vinhedos e não partiram ainda para investimentos de construção de vinícolas.

A Dupla Poda atingiu o Estado do Espírito Santo, na região vinícola de Santa Teresa, tradicional cultivo de Vitis labrusca para a elaboração de vinhos de Mesa. Entretanto, a prática da Dupla Poda, neste estado, está tímida.

Chegou na Bahia, em Mucugê e Morro do Chapéu, com destaque para a vinícola Uva.

Area de vinhedos no Brasil
Veja no gráfico, o crescimento vertiginoso que ocorreu em cerca de somente 20 anos de prática da Dupla Poda.

Os principais Polos da Dupla Poda

Como a área, atual, de cultivo de Vitis vinífera, utilizando a prática da Dupla Poda é extensa, envolvendo vários estados do Sudeste e Centro-Oeste, organizei em polos de investimentos, objetivando passar ao leitor uma visão ampla e global e ajudá-lo a planejar suas viagens enoturísticas, temas que serão abordados ao longo do próximo ano, nas colunas do Balcão News.

Polos da Dupla Poda

Os dois maiores polos da Dupla Poda se encontram na região do Sul de Minas e na fronteira com São Paulo, entre as cidades mineiras de Andradas e Jacutinga e do outro lado da fronteira, em Espírito Santo do Pinhal e Santo Antônio do Jardim, carinhosamente chamado Serra dos Encontros, tema das próximas colunas. Aguardem.

Deve-se atentar que a área do Sul de Minas é muito grande e já temos vinhedos surgindo próximo a Maria da Fé/Itanhandu, bem como, próximo de Lavras/Bonsucesso/Tiradentes e até na região do Mar de Minas – Lago de Furnas, Sudoeste de Minas, com destaque para as vinícolas Quinta do Canário e Quinta do Carcará.

Várias divisões seriam possíveis. Temos que aguardar os primeiros movimentos para a criação de Associações, as quais poderão iniciar o processo (tramites) para a criação das primeiras Indicações Geográficas (IGs) ou áreas de Indicação de Procedência (IPs) dos chamados Vinhos de Inverno, cuja implantação pode demorar anos ou décadas. Mas, já saiu a primeira IG do Sul de Minas, que em outro artigo abordarei sobre este tema.

Convido você, leitor desta coluna a acompanhar os vários próximos arquivos que descreverei cada região vinícola de cada estado que está praticando a Dupla Poda. Venha viajar comigo, nesta aventura. E, o mais importante é você quem vai degustar.

Desejando conhecer, com profundidade este tema, segue o link do meu e-book: “Minhas Aventuras pela Dupla Poda”:

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Professor Horácio Barros

Professor Horácio Barros é engenheiro siderúrgico, especialista em vinhos e fundador da Escola Itinerante de Vinhos. Referência nacional em Vinhos de Inverno e na técnica da Dupla Poda, é autor do e-book Minhas Aventuras pela Dupla Poda e colunista do Balcão News.

Conheça mais o trabalho do professor Horácio acessando:

Site: www.wineworldadventure.com
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Leia também os outros artigos publicados semanalmente:

Artigo 01: Como conheci a Dupla Poda

Artigo 02: O que é Dupla Poda

Artigo 03: Como alterar o ciclo da videira para colher no inverno

Artigo 04: As uvas da Dupla Poda

Artigo 05: Principais vantagens da Colheita de Inverno

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